Si bemol é o tom do mundo.

Calma, a afirmação do título deste post não tem nada a ver com seitas satânicas ou suicidas. Tem relação com um livro do Schafer, A afinação do mundo (2001), no qual o autor realiza um apanhado histórico dos sons que reverberavam nas principais civilizações da história humana, do chiado do mar ao chiado do avião a jato.

Em determinado trecho (que eu não fichei ainda), ele fala da eletricidade. Ela é distribuída em duas frequências, 50 ou 60 hertz, dependendo do país. Aqui no Brasil, como você pode ver no cabo de força do seu PC, usamos 60hz, o que é muito próximo da frequência que um baixo elétrico faz ao soar seu mais grave si bemol, se estiver afinado seu lá no padrão de 440hz, claro. O lá mais grave do baixo é oito vezes mais lento que a frequência de afinação, ou seja, 55hz.

Confuso, né? Mas não precisa se ater a isso. Melhor que entender esta teoria é ouvir o som. Boa parte dos aparelhos eletrônicos “vazam” este ruído. Geladeiras, condicionadores de ar de parede, estabilizadores, ventiladores de teto, e até os amplificadores de guitarra e baixo (especialmente quando distorcidos)… escute cada um deles e você notará que sua cabeça já estava afinada nos 60hz.

Pretendo relacionar o estado atual da paisagem sonora das metrópoles com os audiovisuais musicais que serão analisados pela minha pesquisa, pois, como o Schafer constata: “Hoje, todos os sons fazem parte de um campo contínuo de possibilidades, que pertence ao domínio compreensivo da música. Eis a nova orquestra: o universo sonoro! E os músicos: qualquer coisa que soe!” (2001:20).

Pra quem não sabe, paisagem sonora é qualquer campo de estudo acústico. Podemos referir-nos a uma composição musical, a um programa de rádio ou mesmo a um ambiente acústico como paisagens sonoras. (Schafer, 2001:23)

E o melhor é quando a gente consegue extrair dessa paisagem sonora uma experiência estética. Acontece quando a gente deixa de se preocupar com nosso bolso: não se perguntar o tempo todo para que as coisas servem, mas simplesmente deleitar-se com elas. Cuidado para não tomar um tapa na cara do mestre budista.

Eis uma dupla de dois músicos que conseguirem esse feito; do hospital tiraram belos sons de uma máquina de ressonância magnética:

Referências:

SCHAFER, R. Murray. O ouvido pensante. São Paulo: UNESP, 1991.

______. A afinação do mundo. São Paulo: UNESP, 2001.

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Cat Power e os ruídos de Porto Alegre

Minha excelente visão do show. NOT

Fui no show da Cat Power no Opinião, em 20 de maio.

Logo que adentrei o bar, Cat Power iniciava “Don’t Explain”, num volume drasticamente baixo. O público vencia, nos resmungos (nem gritavam para conversar) o som produzido pela banda. Isso pra mim foi algo bem estranho de ver acontecer.

Fiquei me perguntando se o show não devia ter sido na OSPA, no SESI, ou qualquer outro lugar em que se pudesse ouvir com mais atenção. Afinal muita coisa se perde em um ambiente cuja acústica colabora mais para rock barulhento. Mas ao longo do show os ruídos da plateia diminuíram, e eu não saberia dizer se foi só porque a banda aumentou o volume, ou a galera na pista resolveu prestar mais atenção.

E aí que eu, demasiado humano, me indagava: mas isto é um show de rock ou não? Bem, acho que estávamos entre as duas possibilidades. Cat Power tem lá suas influências de blues, jazz, mas também de Velvet Underground. Não haveria um lugar ideal para acontecer seu show, portanto.

Teve um momento muito estranho durante o show: alguém lá em baixo, na pista, mandou um “shhhh”! Sério, quem pede silêncio durante um show no Opinião? O que estava acontecendo ali?

O que é uma pena, porque muito da sua voz se perdeu na acústica do Opinião, engordurando os sussurros. De onde eu estava, não dava pra entender o que ela estava cantando, em boa parte do show.

A banda estava impecável, e Chan também, além de tratar muito bem o público. Foi ótimo sair de lá sem estar com os ouvidos apitando!

Bem, se você, que esteve lá, quiser opinar, sobre o ambiente, sinta-se à vontade. É uma boa discussão: qual seria o ambiente mais apropriado para um show da Cat Power em Porto Alegre?