Retromania e o fim das vanguardas: comentário do mediador

Fui entrevistado há duas semanas para o caderno Mais Preza, do Correio do Povo. Queriam que eu dissesse como eu achava que seria (ou como está sendo) a música de 2012. Segue, abaixo, todas as minhas considerações que não foram publicadas no jornal, e que penso que conectam com o tema abordado pelo Clube do Pop na Semana Acadêmica da Comunicação da UFRGS.

Tem um livro do Simon Reynolds, que é um crítico muito famoso de música popular, recém lançado e intitulado Retromania, no qual ele defende que a música da nossa época está viciada em olhar para o próprio passado. Entre vários exemplos, ele cita a Adele como um revival de várias outras divas do R&B do passado. Então ele diz ainda que a última década (2001-2010) não emplacou um estilo musical que a marcasse, como o grunge e o eurodance na década de noventa. Eu acho válido e importante entender esse momento que estamos vivendo, e que não podemos negar que o que parece envelhecido tem valor de mercado.

O Vaccines, por exemplo, que é uma banda nova, fazendo um clipe com fotos tiradas pelos fãs e publicadas no instagram; ou a carreira solo do Jack White, que segue aquele clima punk caipira do White Stripes, sem contar que ele está apadrinhando “crias bastardas” como a Black Belles, que podemos pensar como um White Stripes de calcinha. Temos exemplos também de 2011, mas que vão refletir muito o que deve se estabelecer para 2012: os discos de Noel Gallagher e do Beady Eye, tem respectivamente, o melhor do Noel e o melhor do Liam do Oasis em cada um. Ambos optaram por um caminho mais tranquilo, sem romper com o contrato que eles estabeleceram com seus respectivos fãs (bem o contrário do que o Radiohead fez no Kid A ou o Los Hermanos no Bloco do Eu Sozinho). 2011 e 2012 estão se marcando pela volta de grandes nomes: aqui em Porto Alegre, a Graforréia Xilarmônica recém lançou dois singles. E a volta deles é tal qual a de Beavis & Butt-head na MTV: extremamente conservadora em termos estéticos. Isso não quer dizer que é uma “saída fácil”. Fazer música nova mantendo muitos padrões estéticos e o interesse dos fãs é igualmente difícil a produzir um Kid A. O Foo Fighters também voltou dessa maneira, tentando soar como se estivessem em 1991. E conseguiram vários Grammys.

Voltando pro Simon Reynolds, teve mais uma coisa que ele disse: que talvez o gênero que melhor se consolidou como “da década de 2000” teria sido o indie rock, mas que ele não consideraria porque não atingiu o mainstream da mesma forma que o grunge conseguiu em 1990. Mas, será que não foi esse o grande mérito do indie rock dos 2000? Com o advento do MP3, dos tocadores portáteis digitais e toda a parafernália que nos permite levar no bolso mais de 1.500 discos, não teria ficado mais difícil chegar no topo das paradas? E o público não teria se segmentado, criando culturas de fãs as mais variadas?

Acho que não dá pra pensar “sucesso” hoje como se pensava há vinte anos. Como resposta a isso, eu cito o trabalho novo de Thurston Moore, do Sonic Youth, que após terminar com Kim Gordon (e consequentemente acabando com o Sonic Youth), encostou sua guitarra (e desta vez não em um amplificador) e gravou um disco com violões e violinos, e reinventou o pós-rock. Acho que é o mesmo caminho da PJ Harvey no seu disco Let England Shake, mais introspectivo. Parece que, para eles, depois de vinte a trinta anos de carreia, eles já estabeleceram todo um universo underground, que se opôs ao que estava como estabelecido, e agora esse underground também já se estabeleceu!

Desse modo, acho que uma possível tendência para a década de 10 que está começando é a seguinte: o indie rock, ou pós-rock, como queira, vai passar de um estado barroco (no sentido de tentar romper com o status quo) para um estado clássico. Eu acho que isso já está acontecendo, tem muita banda tocando nas pistas de dança e nas rádios cuja inspiração são bandas mais obscuras das décadas de 1980 e 1990. Pra mim um dos melhores exemplos é a banda The Joy Formidable, um trio galês que lançou ano passado o The Big Roar, seu primeiro disco, com muita energia e guitarras carregadas de drones (sustentação ou repetição incessante de uma mesma nota ou acorde) e ruídos, mas ao mesmo tempo respeitando o formato canção. Eles pegam o melhor do pós-rock da região deles, que é o cuidado maior com timbres ruidosos de guitarra em detrimento à melodias (característica do shoegaze), mas unem a uma estrutura mais radiofônica.

Me parece que vai ser uma época de muitas guitarras guturais, com muito reverb, ritmo dançante, e aquele efeito de rádio estragado nos vocais, como ocorre nos Strokes e todas as bandas que vieram depois, de The Killers a The Vaccines. O indie vai infectar todos os outros estilos.

Não acho também que não se criam coisas novas no atual período que o Simon Reynolds chama de “era retrô” (o Lev Manovich chama de “era remix”, então quem tem razão?)… Essa questão de o que é “original”, “novo”, “criativo” é super problemático e caro para a filosofia, mas não cabe discutir aqui… Se for pra pensar assim, Black Sabbath não era original, porque misturava blues com obscurantismo e poderíamos pensar assim de tudo o que ocorreu na música. Isso acontece porque a gente reconhece e interpreta uma imagem que vemos no mundo a partir de imagens que temos na memória, então algo “novo” sempre remete a algo “velho”.

Eu penso que as bandas de hoje, de 2012, são tão criativas quanto as anteriores, e acho muito mais difícil fazer rock agora porque temos muito mais imagens na memória do que é rock do que tínhamos em 1969. Se for necessário exemplos, eu ilustraria com Vampire Weekend, de novo com o Thurston Moore e a PJ Harvey, MGMT, Mark Ronson, Gorillaz, LCD Soundsystem e Arcade Fire. Dá pra se reconhecer os intercessores de cada um, mas ao mesmo tempo pode-se reconhecer em cada um desses artistas muitas características novas, digo, mais desprendidos de imagens antigas, e mais do que aparenta.

A música de 2011 e 2012 é muito mais do que Adele e Foo Fighters.Não podemos nos deixar levar só pelo mainstream.

E pra fechar, talvez seja isso que o indie rock dos anos 2000 vai nos mostrar: que o mainstream não comporta mais as vanguardas, como ocorreu com o grunge e o Radiohead. Graças ao acesso facilitado à música atual, os movimentos de revolução da música pop voltarão a ser minoritários.

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PodCast: Scum. Agenciamentos midiáticos na conformação do metal extremo

O disco “Scum”, da Napalm Death.

No dia 21 de maio de 2012, Fabrício Silveira, doutor em comunicação e professor da Unisinos, palestrou na Semana Acadêmica da FABICO (UFRGS) sobre a dimensão midiática da experiência sonora do disco Scum, da banda Napalm Death. O Clube do Pop, do qual faço parte, organizou o evento. E gravamos um Pod Cast. Ouça na íntegra, dividido em duas partes, a palestra e as perguntas dirigidas à Fabrício:

PARTE 1:

PARTE 2:

Abaixo, alguns dos vídeos que ele mencionou na palestra:

Napalm Death – You Suffer:

Blast Beats:

Entrevista do Sex Pistols para a TV britânica:

Kurt Cobain fora da casinha:

O conceito do Rock morreu.

Quando algo ganha um dia para ser lembrado, é porque está sendo esquecido. Será que isso está acontecendo com o Rock? Nem fodendo! O problema é que quem faz rock hoje é um bando de cagão, gente que assume fazer Happy Rock. O rock é um estilo musical feliz por natureza, mas feliz num Iggy Pop Style, não vestido feito um Ursinho Carinhoso. A impressão que eu tenho é que para ser rock, basta usar um Boss DS-1.

Se algo morreu, é a postura do rock. Não temos mais travestis machões como Bowie, e sim homenzinhos afeminados como Restart (leia-se Hey, Start, como os próprios membros da banda pronunciam). Sumiram representantes do que Carlo Pianta chama de rock burro, bandas papo reto como Kiss, Black Sabbath.

O rock cometeu sua maior falha: entrou na onda do política e ecologicamente correto. Os roqueiros de hoje não querem dirigir nem Hummers nem Harleys; querem andar de Smart. A fumaça vem da chaleira, para preparar um chazinho verde. O óculos escuro não é por que faltou colírio. A máscara da falta de afinação, se uma vez era o grito, hoje é o auto-tune (Ouvir Cine e o Uo-ô, Ô-O deles).

Rock sempre foi muito mais postura e choque do que falar de amor (nesse sentido, a carreira solo de Paul McCartney é bem pouco roqueira). Como Walter Benjamin fala de Chaplin, o Rock também foi muito mais eficiente que o Dadaísmo na hora de produzir choque, e que é de ordem tátil.

Até quando o rock queria passar uma mensagem ele mantinha uma postura de produzir choque. Ele muitas vezes foi capaz de produzir choque para si. Lembram do Radiohead em Kid A, ensinando que dá pra fazer rock sem guitarra? Ou do Los Hermanos, que provaram que bunda moles também podem tocar rock; e os Ramones, provando que gente feia também pode ser estrela; dos Mutantes, mostrando que uma música pode ser feita com cacos de outras músicas; Do White Stripes, sem baixista; da Musical Amizade, sem baterista.

Pra mim o rock começou a morrer com o nu-metal. Quem precisava de um novo metal? Aliás, que metaleiro aceitaria o uso de scratch num metal? O metal é o subgênero mais conservador do rock, e ao mesmo tempo o menos erudito. O Gabriel Saikoski bem dizia: os caras aprenderam a ser virtuoses da guitarra executando fugas do Bach só para masturbar as suas guitarras.

Termino esse papo de boteco falando de videoclipe, que é minha praia: se o rock começa a morrer com o nu-metal, começa a definhar com o YouTube. O rock foi o gênero que mais contribuiu para a criatividade em video clipes. Falo de Strawberry Fields Forever, Heart-Shaped Box, Fell In Love With a Girl, Let Forever Be, Sabotage, Bohemian Rapsody, Beat It. Mas com o YouTube o que aconteceu? O mercado passou a pensar que ninguém mais queria ver videoclipe na TV. Aí passaram a fazer clipe só do que dava muito dinheiro: Beyoncè, 50 Cent e Lady Gaga. Como essa galera não é nem um pouco dadaísta, se foi o choque, se foi a postura rock no mainstream. O rock, ao menos conceitualmente, pra mim, está morto. Olhem só quem faz rock na MTV hoje: