Os anos noventa que não conhecemos

Depois de ir no Boom Shakalaika, acabei relembrando dos meus anos noventa. Eu acho que dá pra sintetizar assim:

91-93: entre 6 e 8 anos, eu tinha uma TV com uma antena UHF, aquela em formato borboleta, coisa que poucos tinham na época, mas que, desconfiava eu, não devia ser cara. De qualquer modo eu tive MTV na minha televisão desde o seu início. Alguns momentos ainda perduram na minha memória: lembro aos 8 anos curtindo Sliver do Nirvana no meu quarto; do Gastão apresentando Gás Total; e, principalmente, de Beavis & Butt-head. A estética da sujeira, do big muff imperavam num momento em que o underground era o mainstream.

94-97: de algum modo eu esqueci o rock entre meus 9 e 12 anos justamente quando ele deveria ter aflorado. Eu parei de ver MTV, e a imposição que a novela Quatro por Quatro, o retorno da música lenta, a dance music e, principalmente, as reuniões dançantes organizadas pelas meninas me fez comprar CDs como o da novela já mencionada, do Skank, do U2, do Bon Jovi, e, pasmem, da Shakira. Engraçado que o mais chocante que havia à época era Mamonas Assassinas. Achávamos tudo bárbaro, de qualquer maneira.

98-2000: a década fecha entre meus 13 e 15, quando redescobri o rock e a MTV pela TV por assinatura. Reencontrei o Nirvana num especial da MTV de aniversário de morte de Cobain. Isso me levou a ouvir muitas bandas que giram em torno do grunge: Smashing Pumpkins, por exemplo. Também conheci alguns queridinhos da MTV Brasil como Oasis e Blur. Radiohead foi uma joia rara graças a única outra opção para se conhecer rock que sabíamos naqueles tempos: a showbizz.

2000-2011: a década seguinte me reservou algo muito especial: um revival dos anos noventa, mas de uma década que eu nunca vi. Não estou falando do Boomshakalaika, porque esta festa se propõe a tocar exatamente o que ouvíamos nos 90. Mas, com a internet, acabei descobrindo bandas muito importantes para a década passada que eu não fazia a menor ideia que existiam. Nos anos 2000, eu conheci os anos 90 que eu nem sabia que existiram

Pulp; Lemonheads; Pixies; Tom Waits, Cake, Air, Cat Power, Death In Vegas, My Bloody Valentine, Flaming Lips, Pavement, Superchunk, The Breeders, Dinosaur Jr, PJ Harvey.

São só alguns nomes, mas de bandas super reverenciadas, algumas nascidas nos 80 mas que também marcaram os 90, e que se vierem pro Brasil tocar, eu iria só por tudo o que eu ouvi deles nos anos 2000. A MTV pode até ter me mostrado alguma dessas bandas, mas não as emoldurava com a importância que lhes são dadas hoje. Por causa do modo como a mídia operava na época, algumas bandas levavam tempo para amadurecer no Brasil. A Cat Power fez um show por aqui anos atrás e foi vergonhoso de vazio. Mas, provavelmente com a web, os hypes a conheceram por outros canais e hoje Porto Alegre está cheio de hipsters pra provar o contrário.

My Bloody Valentine é o caso mais chocante pra mim. Nunca imaginei que fosse ouvir uma banda que soasse tão moderna mesmo sendo de 1991. Pra mim Loveless ainda é um dos discos mais modernos da música pop, e se eu colocar ele do lado de um Beady Eye ou qualquer outra porcaria nova, o disco do MBV parece ter vindo do futuro. Mas é um som muito chato pra ser transmitido pela TV.

Acho que Tom Waits sofreu o mesmo problema. Só lembro daquele clipe dele para I don’t wanna grow up que passou no Beavis & Butt-head. Não tenho memória alguma de PJ Harvey, Superchunk, Pavement, Lemonheads, Pulp nem Pavement, e olha que eu passava horas a fio diante da MTV.

Essas são coisas que só a indústria fonográfica pode explicar. Não passava aqui porque os discos também não foram fabricados no Brasil? Não passava porque não tinha público? Difícil saber. Mas lembro que era raro achar um disco de rock ou pop pra vender se a banda não tivesse passado ao menos um clipe na MTV Brasil. A Multisom sempre estava abastecida de Pink Floyd, Black Sabbath e Beatles, mas especialmente de Pearl Jam, Nirvana, Alice In Chains, Metallica, Oasis…

Depois começou a onda dos balaios: CDs a 10 reais. Aí começou a aparecer umas coisas antigas que eu nunca via nas estantes principais: Living Colour, Black Crowes, Sonic Youth, Cake. Como eu só comprava o que eu sabia que ia gostar, e a MTV não me alimentava disso, descobri essas bandas primeiro na web, e descobri com o mundo digital também que os discos não faziam mais falta, apenas ocupavam espaço e comiam meu dinheiro.

Aliás, vocês lembram quanto custava um disco novo em 2000? Eu lembro de ter pago 23,90 pelo Neon Ballroom do Silverchair. Onze anos depois, com esse preço eu levo minha namorada no Subway. Quanto valia 23,90 na época? Lembro também que uma pizza grande custava 14 reais. Hoje custa 30. Será que isso quer dizer que na época um CD custava quase 50 reais para nossos bolsos? Onde estávamos com a cabeça?

Os anos 90 que vivemos em Porto Alegre foram únicos.

Virose Gaga

Hoje de manhã passou na MTV o clipe Telephone, da Lady Gaga em parceria com Beyoncè. Eu me lembrei que fizeram um estardalhaço com o lançamento desse vídeo. Lembrei também de várias matérias jornalísticas sobre Gaga que eu li, ouvi, e assisti por aí. Pra quem não gosta, é mais difícil driblar Gaga do que novela das oito. Como um vírus, ela infectou a todos nós.

Os adoradores de pop music, em entrevistas na MTV falam que ela era o que faltava para o mundo Pop, que carecia de uma imagem que substituísse o buraco deixado por Madonna. Particularmente, eu não vejo nenhuma diferença entre as duas. Gaga só ocupou um mesmo lugar, aproveitando que o nosso zeitgeist é um retorno aos anos 80: falta de perspectiva a longo prazo, mas muito vigor para se acabar na noite como se não houvesse amanhã. Uma espécie de cultura da cocaína. Dizer que não aconteceu nada entre Madonna e ela também é de uma imbecilidade tamanha.

Alguém falou por aí que Gaga estava reinventando o jeito de fazer vídeo clipe. Eu digo NOT. Coloquem Telephone e Thriller do Michael Jackson lado a lado, e vocês verão duzentos pontos em comum: referências à filmes, pausas na canção para desenvolver uma narrativa, coreografias esquizofrênicas, participações especiais, longa duração e créditos subindo no final. A verdadeira reinvenção do vídeo clipe acontece na web, por artistas amadores, e aparentemente não pode acontecer através de bandas e músicos que ensejam uma gravadora. Eu já venho falando disso em vários posts por aqui. Mas talvez mais pra frente eu explique melhor essa situação.

Lady Gaga é um movimento pela imagem, não pela música. Não há nenhuma revolução do vídeo clipe por ela, quiçá musical! Se não soubesse que Poker Face fosse dela, poderia jurar que Coronna havia voltado.

Querem fazer dela algo maior do que é, e daí dizem “que não tem como explicar o que ela faz conosco”. Mas nossa época não é uma de revoluções mundiais. Ao contrário do que se fazia em 60 com as músicas de protesto, só ouvimos as coisas porque achamos legais. A estabilidade política e emocional de nosso tempo permite curtimos a estética das coisas, sem se preocupar mais com a finalidade delas. Ninguém compra um Porsche para mudar o mundo. Ninguém que ouve Gaga deve querer a mesma coisa. Só se o envolvimento é de entrega, mas quem pensa assim está fora do nosso tempo: não há uma causa a se aderir.

Se quiserem falar coisas bonitas de Gaga, podem dizer que nem um entusiasta abestado de Igor Stravinski: ela causou uma revolução completa na música e no comportamento das pessoas. O entusiasta talvez não tenha se dado conta, mas uma revolução completa são 360 graus, volta exatamente para o mesmo lugar. E o “mesmo lugar” de onde Gaga surge é o da retórica redundante de que precisamos de um ídolo máximo no mundo da música. Podemos só curtir o som numa boa?