1º Encontro Anual dos Sempós – Fabico/UFRGS, 2011

Sempós: Associação Local dos Chinelões sem Titulação em Comunicação

OBS: a programação sofrerá adições ao longo da semana.


PROGRAMAÇÃO


TERÇA-FEIRA 21/6

16h – RODOVIÁRIA- Fechamento de casa e venda de pasteis

17h – FACHADA DO SALÃO DE ATOS – Protesto contra a valoração quantitativa de produção acadêmica da Capes e da CNPq. Traga sua panela, cadeira de praia, cachorro e chimarrão!

19h – BAMBUS – Coquetel de abertura do congresso


QUARTA-FEIRA 22/6

10h30 – AUDITÓRIO 2 – Sala aberta para o aquecimento para exibição do documentário sobre a vida e a obra de Daniel Johnston

11h – AUDITÓRIO 2 – Exibição e debate do documentário “The Devil and Daniel Johnston” (Clube do Pop) 13h – FERREIRA LANCHES – Reunião-almoço: crítica aos franceses mau-humorados

14h – TIA VILMA –  Mesa (de bar) temática: Repercussão da Compós: enaltação à Luhmann, Flusser, Latour e Chico Rudiger – Por um novo paradigma da epistemologia da comunicação – #NOT

16h – CORREDORES DA FABICO – Pregação de cartazes do Manifesto pelo movimento de retrogradação intelectual do espírito. De volta às experiências primeiras!


QUINTA-FEIRA 23/6

Feriado (que bolsista Sempós não é de ferro)


SEXTA-FEIRA, 24/6


12h – LANCHERIA DO PARQUE – Mesa (de bar) temática: CIBERCULTURA PARA GENTE GRANDE – um panorama para além dos pop stars integrados da fabico


14h – VIENA CAFÉ – Mesa (de bar) temática: COMO LER OS PÓS MODERNOS – esquecendo lyotard, maffesoli, durand e bachelard

17h3o – Odeon – Mesa (de bar) temática: A CULTURA DO LO-FI: NEO ARCADISMO OU COSMÉTICA DO TOSCO?

19h – PÁTIO DA FABICO – Fogueira de São João sustentável. Combustível: livros de Baudrillard, Lyotard, Debord, Foucault, Bhabha, Derrida, e, claro, Paulo Coelho.

21h – PINACOTECA – Laboratório experimental: Rimbaud e o absinto (com Alexandre Rocha da Silva)


SÁBADO, 25/6


20h – SPEED LANCHES – Mesa (de bar) temática: lixo cultural no YouTube

21h – CACHORRO DO HÉLIO – Mesa (de bar) temática: profile de gente morta no Orkut

22h – CACHORRO DO HÉLIO – Mesa (de bar) temática: clichês futebolísticos na televisão

23h – LAIKA – Festa de encerramento: Boomshakalaika


DOMINGO, 26/6

04h – PAMPA BURGUER – Janta de encerramento

06h – POSTINHO DA VENÂNCIO –  Reunião dos coordenadores de GT

Broadcast yourself: that really hurt

Como é típico das redes sociais, o @tellesjornal me disse que a @ace_of_hearts disse que viu um post do Brainstorm9 do Carlos Merigo que diz que um festival de filmes de curta-metragem canadense criou três peças audiovisuais para promover-se. Os vídeos, publicados no YouTube, apresentam “versões” do já clássico “Charlie Bit My Finger“. Cada peça representa elementos aleatórios do original embrulhando-os com elementos da linguagem cinematográfica e cobrindo tudo com três gêneros: terror, musical e humor negro(?). Embedei o musical abaixo, mas não porque achei o melhor:

A proposta até que é interessante, embora eu tenha achado os três bem sem graça. No entanto, me parece fraco mesmo o slogan do festival, que assina os três vídeos: anyone can upload few can direct. Aparentemente quer impor a ideia de que um diretor de cinema consegue fazer um vídeo se tornar mais interessante do que uma pessoa com uma câmera na mão no lugar certo na hora certa.

De acordo com o site Worldwide Short Film Festival (tradução minha),

Na cultura ligeira [snack] atual, não há falta de vídeos caseiros circulando online, acumulando milhões de views ao redor do mundo. Para demonstrar a diferença de qualidade entre um curta-metragem de cinema e um vídeo [estudem e elevem-se, produtores caseiros], convidamos três diretores de vídeo para transformar o popular vídeo viral “Charlie Bit My Finger” em um curta. Acabamos com três inusitadas interpretações cinematográficas, mas todas elas dividem algo em comum: um grande diretor faz toda a diferença [isso é bullying com o Charlie! Ouch!]. Venha ver os melhores curtas do mundo no Worldwide Short Film Festival.

Pra mim só provou que tem coisas que o cinema não consegue imaginar tão bem quanto o vídeo.

Me fez lembrar de uma sessão de debate que participei com diretores no CineEsquemaNovo em 2008. Na época, representava a Musical Amizade com o vídeo Entrevistando Massimo Canevacci. Não lembro porque, mas o debate caiu nos vídeos da web. Uma das diretoras falou que não conseguia conceber como um vídeo ridículo como o abaixo podia ter tantos views (já passam dos 170 milhões) enquanto a produção videográfica que nós, “experts”, produzíamos, ficava às margens:

À época eu já vinha me vacinando desse olhar (que é o mesmo de Adorno na década de 1940), graças ao Lucas Diniz, que foi a única pessoa que conseguiu me apresentar o Funk Carioca, o Rap, o Hip Hop e outros sons verdadeiramente marginai e fazer com que eu entendesse a proposta e não os enxergasse como algo low brow.

Então eu respondi (não com a mesma clareza que faço aqui, hehe) que no primeiro CineEsquemaNovo, em 2003, exibiram um vídeo em que uma menina filmou um plano detalhe/sequência de um sorvete, enquanto caminhava com ele por uma praia. O filme durava o exato tempo do sorvete derreter. Como é que nós, “experts”, vamos dizer que vídeo as pessoas deviam assistir, se nossa produção em geral é tão desqualificada quanto o vídeo do bebê que ri?

Me parece que a indústria (e os produtores/diretores dela) tem problemas em compreender a força desses fenômenos do YouTube. Não falo de “dar valor”, porque isso automaticamente polarizaria o conteúdo novamente entre belo e feio, entre high e low brow. Pro olhar frankfurtiano, nós teríamos que “melhorar” o conteúdo da “música ligeira”, aproximando-a da música de alta cultura, até que não houvesse mais distinção de classe. Ou seja, não seriam os burgueses que teriam que entender as práticas da baixa cultura, mas estas é que teriam que se “elevar”. Aham, Cláudia.

No fim das contas, o que aconteceu, é que o som da baixa cultura da época, hoje, é o som que toca nos estéreos da burguesia: o jazz. Ao analisar os vídeos da web com os termos do cinema, especialmente esses que realmente machucam (that really hurt, Charlie!) o olhar polarizado, é óbvio que eles vão parecer lixo cultural. Despreocupação com enquadramento, montagem mal feita, créditos elaborados no Windows Movie Maker, “atores” que intrepretam mal… Mas quem disse que a proposta desses vídeos é essa? Ninguém que posta a história de um cara que apostou o toba num jogo de Truco tem “nobres” intenções! Tampouco intenções “plebes” – acho que o cara só quer dar risada, e o humor não tem classe (nos dois sentidos do termo).

Por isso eu gostaria por fim de propor a quem estuda estes vídeos não chamá-los nunca mais de lixo cultural, pois algo que está efetivamente mudando o cenário audiovisual atual não pode ser considerado dejeto (a não ser que esteja se acumulando por cima da produção cinematográfica, o que seria ainda mais legal).

Sobre o entretenimento online

Alguns argumentos caóticos que rascunhei para o programa dos alunos na Unisinos.FM (103.3), que participei em 20/4/2011, falando sobre o grupo de pesquisa da Adiana Amaral e Fabrício Silveira de Comunicação e Culturas do Entretenimento. Ambos participaram, além do meu colega de mestrado Márcio Telles, que estuda futebol da(á) televisão:

Exemplo de Meme: Rage Guy (fffuuuu)

É fundamental compreendermos as culturas de entretenimento, pois elas nos dizem muito sobre a sociedade atual. Eu venho me interesando bastante sobre a produção amadora da web. Tem um site chamado KnowYourMeme que fisgou isso. Ele “cientificizou” (ainda que ficcionalmente) as bobagens que os internautas criam em fóruns, e por isso é super valorizado. As pessoas adoram encontrar sua produção ali. Acho que atualmente, na web, todo mundo se sente produtor de conteúdo, e todo mundo acha que tem o direito de ser considerado interessante. Por isso que o Know Your Meme cresceu, porque deu legitimidade pro conteudo dos amadores. E por isso que todo mundo escreve sem parar no Twitter. Assim como vivem dizendo que muitos usuários tem um lance de serem nacisistas, quando batem sua própria foto, tem também os que sonham em ser os caras que fazem os melhores textos sarcásticos sobre a sociedade. Justamente por isso também surgem Tumblrs como o Classe Média Sofre, que coleta frases no Twitter e Facebook de pessoas reclamando da vida de barriga cheia.

Glamour cultural, isso sim!

Acho que a ideia de lixo cultural assim fica cada vez mais descreditada. Tem um musico moderno chamado Olivier Messiaen. Ele faz umas obras esquisitas, mas muito elaboradas, o que fez um reporter uma vez chamar a obra dele de “experimental”. O Messiaen fez questão de responder: “eu não sou um músico experimental. eu faço experimentos, mas estes eu jogo fora”. Boa parte da produção da web não são “lixo”, mas é aquilo que o seu autor conseguiu fazer de melhor. A Sthefhany do Cross Fox, por exemplo. Só considera a obra dela lixo quem tem aquele olhar colonialista, burguês, intelectualoide. Em geral, quem consegue abstrair as questões políticas, de classe, as mazelas sociais consegue se divertir com esse tipo de conteúdo. A Bixa Muda de Juazeiro é um exemplo muito forte disso. Algumas pessoas para as quais eu mostrei o vídeo não acharam nem um pouco engraçado. Não é uma questão de alienação, é que simplesmente o humor às vezes precisa abstrair as desgraças. Vejam South Park, por exemplo, que explora esse tipo de humor mas sempre traz uma crítica.

Bixa Muda de Juazeiro

Quase todos os tipos de valor de juízo vem sendo postos a prova desde 1919, mais ou menos, na época que Stravinski teve a première de Sagração da Primavera, saiu o manifesto antropofágico e a arte moderna em geral. Mas geração após geração, as pessoas seguem tentando negar isso. Existe um juízo de valor enorme que valoriza os produtos culturais do mesmo jeito que a escola de Frankfurt tentava fazer. Mas a verdade é que esses valores pouco ou nada dizem sobre os produtos.

Mas assim como os juízos de valor (que muitos cientistas fazem por detrás de seus texto), valorizar uma coisa só por sua fama tambem não tem muita lógica. Na web, por exemplo, não interessa muito quantos views o cara obteve, nem qual foi a obra mais famosa. Interessa o que a obra do cara faz as pessoas mudarem seu jeito de ver o mundo. É que nem aquele papo do Heidegger: uma vez, ao palestrar sobre assuntos filosóficos, um aluno perguntou “Mas o que que eu vou fazer com essas coisas?”, como se a filosofia devesse ser um utensílio, ou algo do tipo. Heidegger respondeu “A questão não é o que você deve fazer com esse conhecimento, mas o que esse conhecimento está fazendo contigo”. O entretenimento na web é feito por todos. Todo mundo está mexendo com todo mundo.