Broadcast yourself: that really hurt

Como é típico das redes sociais, o @tellesjornal me disse que a @ace_of_hearts disse que viu um post do Brainstorm9 do Carlos Merigo que diz que um festival de filmes de curta-metragem canadense criou três peças audiovisuais para promover-se. Os vídeos, publicados no YouTube, apresentam “versões” do já clássico “Charlie Bit My Finger“. Cada peça representa elementos aleatórios do original embrulhando-os com elementos da linguagem cinematográfica e cobrindo tudo com três gêneros: terror, musical e humor negro(?). Embedei o musical abaixo, mas não porque achei o melhor:

A proposta até que é interessante, embora eu tenha achado os três bem sem graça. No entanto, me parece fraco mesmo o slogan do festival, que assina os três vídeos: anyone can upload few can direct. Aparentemente quer impor a ideia de que um diretor de cinema consegue fazer um vídeo se tornar mais interessante do que uma pessoa com uma câmera na mão no lugar certo na hora certa.

De acordo com o site Worldwide Short Film Festival (tradução minha),

Na cultura ligeira [snack] atual, não há falta de vídeos caseiros circulando online, acumulando milhões de views ao redor do mundo. Para demonstrar a diferença de qualidade entre um curta-metragem de cinema e um vídeo [estudem e elevem-se, produtores caseiros], convidamos três diretores de vídeo para transformar o popular vídeo viral “Charlie Bit My Finger” em um curta. Acabamos com três inusitadas interpretações cinematográficas, mas todas elas dividem algo em comum: um grande diretor faz toda a diferença [isso é bullying com o Charlie! Ouch!]. Venha ver os melhores curtas do mundo no Worldwide Short Film Festival.

Pra mim só provou que tem coisas que o cinema não consegue imaginar tão bem quanto o vídeo.

Me fez lembrar de uma sessão de debate que participei com diretores no CineEsquemaNovo em 2008. Na época, representava a Musical Amizade com o vídeo Entrevistando Massimo Canevacci. Não lembro porque, mas o debate caiu nos vídeos da web. Uma das diretoras falou que não conseguia conceber como um vídeo ridículo como o abaixo podia ter tantos views (já passam dos 170 milhões) enquanto a produção videográfica que nós, “experts”, produzíamos, ficava às margens:

À época eu já vinha me vacinando desse olhar (que é o mesmo de Adorno na década de 1940), graças ao Lucas Diniz, que foi a única pessoa que conseguiu me apresentar o Funk Carioca, o Rap, o Hip Hop e outros sons verdadeiramente marginai e fazer com que eu entendesse a proposta e não os enxergasse como algo low brow.

Então eu respondi (não com a mesma clareza que faço aqui, hehe) que no primeiro CineEsquemaNovo, em 2003, exibiram um vídeo em que uma menina filmou um plano detalhe/sequência de um sorvete, enquanto caminhava com ele por uma praia. O filme durava o exato tempo do sorvete derreter. Como é que nós, “experts”, vamos dizer que vídeo as pessoas deviam assistir, se nossa produção em geral é tão desqualificada quanto o vídeo do bebê que ri?

Me parece que a indústria (e os produtores/diretores dela) tem problemas em compreender a força desses fenômenos do YouTube. Não falo de “dar valor”, porque isso automaticamente polarizaria o conteúdo novamente entre belo e feio, entre high e low brow. Pro olhar frankfurtiano, nós teríamos que “melhorar” o conteúdo da “música ligeira”, aproximando-a da música de alta cultura, até que não houvesse mais distinção de classe. Ou seja, não seriam os burgueses que teriam que entender as práticas da baixa cultura, mas estas é que teriam que se “elevar”. Aham, Cláudia.

No fim das contas, o que aconteceu, é que o som da baixa cultura da época, hoje, é o som que toca nos estéreos da burguesia: o jazz. Ao analisar os vídeos da web com os termos do cinema, especialmente esses que realmente machucam (that really hurt, Charlie!) o olhar polarizado, é óbvio que eles vão parecer lixo cultural. Despreocupação com enquadramento, montagem mal feita, créditos elaborados no Windows Movie Maker, “atores” que intrepretam mal… Mas quem disse que a proposta desses vídeos é essa? Ninguém que posta a história de um cara que apostou o toba num jogo de Truco tem “nobres” intenções! Tampouco intenções “plebes” – acho que o cara só quer dar risada, e o humor não tem classe (nos dois sentidos do termo).

Por isso eu gostaria por fim de propor a quem estuda estes vídeos não chamá-los nunca mais de lixo cultural, pois algo que está efetivamente mudando o cenário audiovisual atual não pode ser considerado dejeto (a não ser que esteja se acumulando por cima da produção cinematográfica, o que seria ainda mais legal).

PodCast 02: Zen e o Ocidente (Umberto Eco)

Clique e ouça o PodCast na íntegra. (clique com a direita para fazer download).

Foto criada em 2010-05-21 às 17.33 #2

Marcelo Conter e Gabriel Saikoski

O PodCast deste final de semana trata da influência do Zen Budismo na cultura ocidental da metade para o final do século passado, pelo menos assim foi até descambar numa discussão do que é “percepção”. O Marcelo pensando em Bergson e o Gabriel em Merleau-Ponty. Ao longo do tempo isso se resolve. Leia o fichamento do livro

Depois de nos aventurarmos em densa filosofia ocidental (e oriental), nossa “bofetada antiintelectual” é tocar um standard de Jazz sem critério algum. Dessa vez foi a música “Exactly like you” (Jimmy McHugh): http://soundcloud.com/imagem-musica/exactly-like-you-jimmy-mchugh

Os PodCasts est(ar)ão todos disponíveis gratuitamente para download na Last.fm: http://www.lastfm.com.br/music/Imagem-Música

Está curtindo o John Cage? Assista esse vídeo e conheça-o melhor. Ele fala sobre música e silêncio. http://www.youtube.com/watch?v=pcHnL7aS64Y

Referências bibliográficas

ECO, Umberto. Zen e Ocidente. IN: Obra Aberta. Perspectiva: São Paulo, 2007, p. 203-225.

MATTHEWS, Eric. Compreender Merleau-Pony. Ed. Vozes: Petrópolis, 2010.