VideoSongs da banda Pomplamoose: o que você vê é o que você ouve

Saiu o primeiro artigo derivado do meu projeto de dissertação! Nele eu trato diretamente com um dos tipos de vídeo musical para web que venho estudando: os VideoSongs. O Prof. Alexandre Rocha da Silva assina como co-autor.

Acesse o artigo

RESUMO A música como protagonista na produção de sentido em vídeos para a web desempenha duas funções: uma estruturante – a que denominamos imagem-música e que oferece as diretrizes a partir das quais se tornam possíveis as relações entre imagem e música –, e outra constituinte – que deve ser compreendida em suas relações de interdependência com as demais linguagens que compõem o vídeo para a web. Foram analisados vídeos compostos por imagens que antes não eram musicais, mas quando mixados, se transformam, através de uma intensa edição das trilhas sonora e visual, em músicas: os VideoSongs de Jack Conte. Para reconhecermos este duplo estatuto, compreendemos a música como uma virtualidade (nos termos de Bergson), capaz de se atualizar, através da aplicação de suas estruturas, em todos os elementos do audiovisual.

PALAVRAS-CHAVE VideoSong; audiovisual; música; web; imagem-música

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Resumen del artículo “El doble estatuto de la Música en los VideoSongs”

El doble estatuto de la Música en los VideoSongs

In: GUAL, I. B. et alActas del IV Congreso internacional sobre análisis fílmico: Nuevas tendencias e hibridaciones de los discursos audiovisuales en la cultura digital contemporánea, Universitat Jaume I, Castellón, Espanha. Ediciones de las ciencias sociales, Madrid, 2011. ISBN: 978-84-87510-57-1

Marcelo Bergamin Conter
Alexandre Rocha da Silva

El artículo se propone a discutir el estatuto de la música en vídeos para web, pensando la producción del sentido a partir de las actualizaciones de la música en todos los elementos del audiovisual, incluso en aquellos no-reconocidamente musicales. Foca los videosongs del grupo Pomplamoose, dirigidos por Jack Conte.

El videosong es un método de edición de vídeos musicales que subvierte la lógica del mercado de la industria fonográfica: diferente del videoclip televisivo tradicional, en que los músicos hacen playback de canciones pré-grabadas, las imágenes de ellos tocando son capturadas en el mismo momento en que el sonido de cada instrumento es grabado. Las trillas de audio son entonces sincronizadas y sobrepuestas en editor de audio, donde son mixadas, y después son sincronizadas con las imágenes en software de edición de vídeo. El resultado en la trilla musical es una canción tradicional, pero en la trilla de imagen, la edición imita las estructuras musicales – es dotado de una musicalidad.

Al asistir a los vídeos hospedados en el canal del YouTube del grupo Pomplamoose, surgieron para nosotros algunas cuestiones: los planos tardan mientras tarda la nota, o son cortados para que la frase musical pueda tardar? Algunas imágenes, que tardan menos de un segundo, al ser montadas en secuencia, imitan una frase musical? Serian esas duraciones audiovisuales en verdad duraciones musicales? Que sentidos son producidos por este montaje?

Para encaminar el desarrollo de tales cuestiones, proponemos denominar las imágenes que tardan en el ecrã de samplers audiovisuales. En el ámbito estrictamente musical, samplers son muestras sonoras digitalizadas, como una nota de piano, y que son utilizadas para componer músicas. En el vídeo en cuestión, serian samplers audiovisuales esos casi-planos que justa-puestos, en repetición o en relación con otros serian capaces de producir una dada musicalidad.

Tal método hace con que la Música sea el protagonista en este tipo de audiovisual. Ella estructura la narrativa y los montajes que de ella advienen. El modo como se hace la edición de las tomadas audiovisuales interpreta elementos significantes de la música, pero cuando agregados no producen necesariamente sentido, tendiendo siempre más para una experiencia estética. El mérito estaría entonces en la capacidad del grupo Pomplamoose reterritorializar la Música en el terreno de los audiovisuales musicales; no producir una música distinta, pero producir diferencia en la Música, utilizando el audiovisual como un instrumento musical capaz de imaginar Música, de presenta-la por medio de imágenes – visuales y sonoras –, por lo tanto.

Siendo así, no nos parece adecuado partir de la análisis de las relaciones entre el visual y el sonoro, como viene haciéndose históricamente en estudios sobre videoclip. Ese modo de observación entiende la música como mero elemento dentro de la trilla sonora. Entendiéndola como una virtualidad, podemos analizar sus relaciones con el audiovisual como un todo (tanto en la trilla visual como en la sonora). Tal pensamiento esperamos que produzca un nuevo modo de comprensión de las prácticas técnicas, culturales y estéticas musicales y audiovisuales que emergen en la cibercultura.

Gilles Deleuze e as imagem-movimento e imagem-tempo

Gilles completa seu doutorado no final da década de sessenta com a tese Diferença e Repetição e eis que nasce o autor Deleuze, um pensador francês “filho de maio de 68”. Com uma extensa bibliografia que envolve artes, psicologia e filosofia, em meados da década de oitenta publica dois livros sobre o cinema. Só de modo introdutório, vamos dar conta bem por cima de dois conceitos que aparecem no livro.

Os livros são irmãos e se chamam Imagem-movimento e Imagem-tempo. Neles, Deleuze faz uma extensa análise de novas imagens que o cinema apresenta, derivados do pensamento moderno. O título de cada livro corresponde a um conceito que neles são desenvolvidos.

No primeiro, o autor descreve a montagem no cinema clássico (filmes antigos como Ben-Hur, mas também novos como Titanic). Ele destaca que o modo como os planos eram sequenciados buscavam criar uma sensação natural de movimento. Por exemplo, se filmamos um diálogo entre duas pessoas e usamos dois planos diferentes, um enquadramento para cada ator, podemos tomar a fala de cada um em dias diferentes, mas restituir o fluxo desse diálogo ao montar os planos de modo sequencial e que aparente ser um fluxo natural, verossímil. O cinema não nos dá o movimento das coisas tal como elas são, no entanto é capaz de criar uma imagem desse movimento. Esse tipo de montagem vemos o tempo todo nas novelas, nas sitcoms etc.

Por exemplo, veja o vídeo abaixo. Entre 0:16 e 0:21 há uma troca de plano exatamente quando o ator senta ao piano. No entanto, se assistirmos com atenção, o primeiro plano termina quando ele coloca a mão direita sobre as teclas, e o segundo começa um pouco antes disso. Não era a intenção do diretor que isso ocorresse, mas são falhas que ocorrem quando se filma uma tomada por vez, dificultando o encaixe. Isso não atrapalha o desenvolvimento: por vezes esse tipo de coisa ocorre diante dos nossos olhos no cinema e na TV mas não nos damos conta, porque nos interessa o enredo:

No segundo livro, Deleuze parte para os métodos de montagem no cinema moderno. O que acontece? No filme Acossado, de Godard, por exemplo, acontecem várias cenas como a seguinte:

O que aconteceu? O diretor suprimiu parte do rolo de filme de um mesmo plano, ou ao menos quis passar esta sensação. Isso rompe com a nossa lógica de linearidade temporal. Na troca de planos, acaba evidenciando que o tempo passou (imagem-tempo), e não tenta disfarçar isso, como no cinema clássico. Ele evidencia o método de montagem, faz ver o modo como o cinema é feito, como ele entra em choque com a nossa percepção.

Bibliografia complementar

Aqui tem vários textos complementares à disciplina, que não constam no programa, mas não tem problema que vocês os utilizem nos artigos. Mas tem que cuidar que os autores principais para análise tem que ser algum dos que está no programa da disciplina. Estes também podem ajudá-los a escolher o tema do artigo.

Alguns estão online, outros tem que dar uma procurada, e uns eu posso conseguir para vocês. É só me pedir em aula.

 

FILOSOFIA DA MÚSICA

CAGE, John. Transcrição de entrevista de concedida no filme “Ecoute” por Miroslav Sebestik, 1991. Disponível em: <http://hearingvoices.com/news/2009/09/cage-silence/>. Acessado em 22 de julho de 2010.

CAGE, John. De segunda a um ano. São Paulo: Hucitec, 1985.

CAVALHEIRO, Juciane. A voz e o silêncio em 4’33, de John Cage. In: 16º Congresso de Leitura do Brasil. Anais, Campinas, 2007.

BORNHEIM, Gerd. Metafísica e finitude. São Paulo: Perspectiva, 2001.
Tem um capítulo sobre linguagem musical bem interessante, numa perspectiva

CHAGAS, Paulo C. A Música de Câmara Telemática: a Metáfora de Flusser e o Universo da Música Eletroacústica. IN: GHREBH: Comunicação, Imagem e Técnica – Vilém Flusser. 
v. 1, n. 11. Cisc: São Paulo, 2008. Disponível em: <http://www.cisc.org.br/revista/ghrebh/index.php?journal=ghrebh&page=article&op=view&path%5B%5D=7&path%5B%5D=5>. Acesso em: 1º mar. 2011.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas. São Paulo: Annablume, 2008.
Tem um capítulo sobre o futuro das imagens técnicas musicais Ótimo para quem for estudar web.

FREITAS, Alexandre Siqueira de. Um diálogo entre som e imagem: questões históricas, temporais e de interpretação musical. In: Música Hodie, Goiás, vol. 7, nº 2, 2007. Disponível em: <http://www.musicahodie.mus.br/7_2/UM%20DI%C1LOGO%20ENTRE%20SOM%20E%20IMAGEM-QUEST%D5ES%20HIST%D3RICAS,%20TEMPORAISE%20DE%20INTERPRETA%C7%C3O%20MUSICAL-72.pdf>. Acesso em: 19 out. 2010.

 

METODOLOGIAS DE ANÁLISE

KILPP, Suzana. Ethicidades televisivas. São Leopoldo: Unisinos, 2003.
Tem um método de dissecação dos tempo de vídeo a serem analisados, de modo a fazer ver os procedimentos técnicos discretos que compõem a imagem aparente.

 

ANÁLISE CRÍTICA

BJÖRNBERG, Alf. Structural relationships of music and images in music video. In: MIDDLETON, Richard. Reading pop: approaches to textual analysis in popular music. Nova Iorque: Oxford, 2000, pp. 346-378.

Tem na biblioteca do Instituto de Artes. O cara fala que a maior parte dos estudos sobre videoclipe raramente tocam nos aspectos sonoros e musicais, e daí ele faz umas análises.

CARVALHO, Claudiane de Oliveira. Narratividade em videoclipe: A articulação entre música e imagem. IN: INTERCOM – XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Belo Horizonte. Anais, 2005. Disponível em: <galaxy.intercom.org.br:8180/dspace/bitstream/1904/18217/1/R0856-1.pdf>. Acesso em: 11 out. 2010.

CARVALHO, Claudiane. Sinestesia, ritmo e narratividade: interação entre música e imagem no videoclipe. IN: Ícone (UFPE) .Vol.10, n.1, p.100-114, Pernambuco, julho de 2008. Disponível em: <http://icone-ppgcom.com.br/index.php/icone/article/viewFile/19/18>. Acesso em: 18 out. 2010.

COELHO, Lillian. As relações entre canção, imagem e narrativa nos videoclipes. In: INTERCOM – XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Belo Horizonte. Anais, 2003. Disponível em: <http://www.ericaribeiro.com/Arquivos/CancaoImagemNarrativaVideoclipes.pdf>. Acesso em: 11 out. 2010.

HOLZBACH, Ariane D. ; NARCOLINI, Marild­o José. Videoclipe em tempo de reconfigurações. IN: Revista FAMECOS (Online), v. 1, p. 50-56, 2009.
Estuda o caso do sucesso de clipes do NX Zero na internet.

CASTRO, Gisela. As Canções Inumanas. Compós, 2005.

 

ESTUDOS SOBRE VÍDEO

MACHADO, Arlindo. Anamorfoses cronotópicas ou a quarta dimensão da imagem. In PARENTE, André (Org.). Imagem-Máquina: A era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

PEIXOTO, Nelson Brissac. Passagens da imagem: pintura, fotografia, cinema, arquitetura. In: PARENTE, André (Org.). Imagem-Máquina: A era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.
Sobre a capacidade do vídeo de mostrar quase qualquer tipo de imagem (foto, pintura, cinema etc).

ANDRADE, Suely Chaves. Chris Cunningham: autoria em videoclipe. São Paulo: 2009. Dissertação de Mestrado em Comunicação e Semiótica – PUC-SP.

PRENDERGAST, Roy M. Film music: a neglected art: a study of music in films. 2ª ed. New York: W. W. Norton, 1992.
Baita estudo sobre a trilha sonora de filmes.

 

ACÚSTICA

MENEZES, Flo. A acústica musical em palavras e sons. Cotia: Ateliê Editorial, 2003.

SCHAFER, R. Murray. O ouvido pensante. São Paulo: UNESP, 1991.

 

FILOSOFIA: TEMPO E MOVIMENTO

BERGSON, Henri. Memória e vida. São Paulo: Martins Fontes, 2006c.

BERGSON, Henri. A evolução criadora. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
Tem um capítulo que relaciona o mecanismo cinematográfico com a nossa memória.

DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.
Primeiro volume dos dois livros em que o autor fala sobre cinema (o outro é o imagem-tempo, que usamos em aula).

 

MÚSICA

CARVALHO, Any Raquel. Contraponto modal: manual prático. Porto Alegre: Evangraf, 2006.

SEINCMAN, Eduardo. Do tempo musical. São Paulo: Via Lettera, 2001.

TATIT, Luiz. O cancionista. São Paulo: Edusp, 1996.
Tem um método de análise das letras e melodias da canções bem interessante.

Audiovisualidades de video clipes produzidos para web (5/5)

CONSIDERAÇÕES

Nos videoclipes a repetição aparece como reutilização de intervalos de imagens (planos) e/ou de sons (samplers), como vimos em The Hardest Button To Button, Amateur, Mc Jeremias e Funk da Menina Pastora. No caso dos três últimos, produzidos por amadores para a internet, é curioso que as repetições não ocorrem em função de o realizador ter usado poucos recursos de software na edição ou por questões orçamentárias, mas ocorrem, sim como proposta estética, indo contra alguns hábitos de edição audiovisual. Essa repetição, característica do videoclipe, trabalha com articulações entre imagens e música.

À medida que avançamos no tempo histórico em direção ao presente, partindo de Fantasia e chegando às produções de internet, percebe-se que a criação das imagens e da música vai ficando cada vez mais simultânea, chegando-se, atualmente, à produção de ambas as trilhas a partir de registros audiovisuais que antes não eram nem imagens de videoclipes, nem músicas, como, por exemplo, em MC Jeremias e Funk da Menina Pastora.

O conceito de imagem-música de Silva se prestou muito bem ao que propus para a análise de videoclipes. Mas é preciso deixar claro que a imagem-música só aparece em modelos computacionais, onde videográficos e ondas sonoras são criados, registrados e reproduzidos através de um mesmo código binário. Manifestações como os clipes aqui analisados são compreendidos pelo autor apenas como devires.

Vimos também que, nos anos sessenta, o cinema moderno estava enfrentando as gramáticas vigentes da época, denominadas por Deleuze de imagem-movimento (1985). Esse estilo atualizou o cinema como um todo, sendo que sua gramática passou a fazer parte da linguagem cinematográfica. Da mesma forma, o videoclipe (e o audiovisual como um todo) absorveu as gramáticas, éticas e estéticas de várias mídias audiovisuais e foi constituindo-se tal como ele é, sendo que também acaba por influenciar as mídias com sua linguagem.

Da mesma maneira, concluí o trabalho justamente no momento em que sugiro um possível conceito para o que seria o virtual do videoclipe: tempo-fantasia. Fiquei impossibilitado de desenvolvê-lo, pois conceitos dessa ordem exigem uma pesquisa muito mais aprofundada. De qualquer maneira, chegar a ele só foi possível devido ao meu objetivo com este trabalho, que era o de discorrer sobre devires audiovisuais e a autonomização do videoclipe. Chegar ao conceito de tempo-fantasia só foi possível após ter me lançado à memória do videoclipe e compreendido seu desenvolvimento técnico, estético e cultural.

É possível concluir, então, por ora, o seguinte: a autonomização do videoclipe foi possível pelo estágio dos softwares de edição de áudio e vídeo, que permitiu a criação de samplers, que, ao serem repetidos ao longo do tempo de duração de um videoclipe, constituem imagem-música. E estes clipes, altamente fragmentados e constituídos de situações óticas e sonoras puras, só são apreciados devido a toda uma memória audiovisual, que permite ao espectador aceitar o tempo do videoclipe como um tempo-fantasia.

Referências Bibliográficas

DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.

SILVA, Alexandre Rocha da. Devires de Imagem-Música. In: INTERCOM – XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2005, Rio de Janeiro. INTERCOM, 2005. Disponível em: <http://reposcom.portcom.intercom.org.br/dspace/bitstream/1904/16872/1/R0921-1.pdf&gt;. Acesso em: 19 out. 2007.

Audiovisualidades de video clipes produzidos para web (4/5)

O FALSO, O FANTASMA E O FANTÁSTICO

Cogitamos que o videoclipe possua três potências que o caracterizam como tal, que o fazem ser aquilo que ele é. Inspiradas na imagem-tempo de Deleuze (1990), nas personagens do filme Ano Passado em Marienbad (Alan Resnais, 1961) e no filme Fantasia de Disney (1940), elas seriam, respectivamente: o falso, o fantasma e o fantástico. As definições no dicionário para estas três palavras são semelhantes, o que permite dizer que estas características confluem, sendo, assim, não-excludentes, estando, até certo ponto, incluídas uma na outra:

• Falso. Adj. Contrário à realidade; Em que há mentira, fingimento, dissimulação ou dolo; Diz-se daquilo que é feito à semelhança ou imitação do verdadeiro.

• Fantasma. Sf. Imagem ilusória; fantasmagoria; Visão terrífica, medonha, apavorante; Imagem multiplicada que em aparelhos de televisão às vezes se observa, em conseqüência de más condições de recepção.

• Fantástico. Adj. Só existe na fantasia ou imaginação; fantasmagórico; Falso, simulado, inventado, fictício.

Vamos analisar em especial MC Jeremias. O material capturado na delegacia onde Jeremias fora entrevistado foi montado de acordo com as “normas” do cinema clássico, visando uma sensação de continuidade, por mais que os planos que se sucedem possam ter sido registrados fora da ordem disposta no vídeo.

Na edição ainda entram as legendas, logotipos do programa e outras imagens adicionadas e sobrepostas no panorama, que ajudam a passar uma sensação de fluidez da entrevista, disfarçando a montagem. Esta reportagem é composta de maneira a organizar imagens descontínuas de maneira que desenvolvam uma narrativa, fazendo com que pareçam contínuas. É o falso apresentado como verdadeiro.

Quando as imagens são atualizadas pelo videoclipe, elas deixam de fazer parte de uma narrativa, de um esquema sensório-motor, e passam a apresentar situações óticas e sonoras puras ao invés de uma imagem indireta do tempo (Deleuze, 1985, 1990). Por isto, MC Jeremias e os videoclipes em geral não têm o propósito de representar o “real”; pelo contrário, eles imaginam outro mundo: o mundo fantástico do próprio videoclipe. Eles apresentam o falso como potência do falso.

Outro aspecto que devemos considerar como potência é o caráter fantasmagórico das personagens e dos cenários de videoclipe. Desse ponto de vista, um filme interessante a ser pensado é O ano passado em Marienbad. Segundo Maciel (2001:85), o diretor, Alan Resnais, decompõe a noção cartesiana de espaço-tempo através da montagem do filme, que

[…] explora as zonas de inconsistência do tempo e da memória, a partir da diluição dos limites entre realidade e imaginação. […] o filme joga com a sincronia do tempo e com a temporalidade do espaço, à medida que mistura presente, passado e futuro em um espaço vertiginoso, representado pelas salas, corredores e jardins labirínticos de um hotel barroco.

A câmera passeia pelo espaço físico do gigantesco hotel, seus corredores, janelas, espelhos e quartos repetitivos, criando miradas vertiginosas, tensionadas por falsos-raccords e uma música hipnótica, que fazem o espectador “perder o chão” do espaço-tempo instituído pelo cinema clássico. Tudo se passa como se fosse um sonho, e o tempo parece jorrar sem direção, como se se congelasse na densidade visual do hotel. Aliás, não só o hotel, mas os personagens também parecem congelados, como se fossem instantâneos.

No entanto, há algo que tenta romper com essa sensação: são os travellings que a câmera insiste em realizar. É como se o hotel e as personagens fossem memória, e a câmera, um pensamento que se esforça em tentar lembrar de algo que ocorreu naquele lugar, com aquelas pessoas, há algum tempo atrás, vasculhando essa memória. Ao invés de buscar uma representação da realidade, Resnais apresenta imagens-lembrança, um filme inteiro constituído de flash-backs, que busca incessantemente a memória pura (a origem do fato), estabelecendo assim temporalidades descontínuas. Aqui, nem os diálogos, nem o narrador conseguem manter um princípio de temporalidade contínua. A única coisa que parece simular uma continuidade temporal é a trilha musical.

Marienbad afirma a existência e a inexistência do encontro ao mesmo tempo […]. Ao contrário da imagem-movimento do cinema clássico, onde o espectador reconhece no filme situações, comportamentos, a representação de um estado de coisas, na imagem do cinema moderno, o mundo perde sua identidade, entra em crise e se torna falsificante, múltiplo. (FRANÇA, 2005:32-33)

Dessa forma, as personagens também adotam identidades múltiplas, e essa impossibilidade de reconhecer uma identidade no rosto de outra personagem faz com que acabem se perdendo no espaço atemporal construído pela diegese do filme. Como diz Deleuze (1990:55),

Outra coisa acontece no cinema dito moderno: não algo mais bonito, mais profundo, nem mais verdadeiro, mas outra coisa. É que o esquema sensório-motor já não se exerce, mas também não é ultrapassado, superado. Ele se quebra por dentro. Quer dizer que as percepções e as ações não se encadeiam mais, e que os espaços já não se coordenam nem se preenchem. Personagens, envolvidas em situações óticas e sonoras puras, encontram-se condenadas à deambulação ou à perambulação. São puros videntes, que existem tão-somente no intervalo de movimento, e não têm sequer o consolo do sublime, que os faria encontrar a matéria ou conquistar o espírito. […] A relação situação sensório-motora/imagem indireta do tempo é substituída por uma relação não-localizável situação ótica e sonora pura/imagem-tempo direta. Os opsignos e sonsignos são apresentações diretas do tempo. Os falsos raccords são a própria relação não-localizável: as personagens não os saltam mais, mas mergulham neles.

É interessante comparar esse comportamento das personagens de Marienbad com as do cinema dos primórdios. Prendergast, em seu livro intitulado Film music: a neglected art (1992:3), fala da necessidade de haver trilha musical para o cinema mudo:

Sentiu-se essa necessidade para poupar o espectador do estranhamento envolvido em ver efígies de pessoas vivendo, atuando e até mesmo falando, que eram ao mesmo tempo mudas. O fato de que elas são vivas e não-vivas ao mesmo tempo é o que constitui seu caráter fantasmagórico, e a música foi introduzida não para supri-los com a vida que lhes faltavam […] mas para exorcizar o medo ou ajudar o espectador a absorver o choque. [tradução minha]

No cinema moderno (que também é cinema falado), a possibilidade das personagens produzirem som “dá vida” a elas, e faz com que se criem novos modos de articulação das mesmas com a trilha sonora. Assim, se no cinema mudo era a imagem que assustava, em Marienbad é a música que produz um clima fantasmagórico, desta vez não por insuficiência técnica, mas como proposta estética, para construir um ambiente próprio para este filme. Daí esse desconforto das personagens, impactadas pela imagem direta do tempo e pela composição assombrosa da trilha musical.

Se no cinema a música servia em grande parte para ambientar a narrativa – e, no caso de Marienbad, para causar um desconforto -, nos videoclipes a música é o ambiente, uma vez que, se não há música (ou potência de música), não há videoclipe. E suas canções populares (como as dos vídeos analisados neste trabalho), são fantasiosas em suas letras: contam histórias, falam de desejos, sonhos ou até mesmo de nada em especial, ao sabor do nonsense. A partir desses elementos e também do ritmo, melodia e harmonia da canção, o diretor imagina o lugar onde o videoclipe se passa, o qual, assim como o das letras das canções, acaba sendo um espaço fictício, alhures, o lugar algum como “marienbad” em Marienbad.

O alhures é de natureza intrínseca do videoclipe. Isso acaba acontecendo porque, do mesmo modo que as imagens técnicas, a música também tem o poder de imaginar o mundo. A música integra essa característica ao videoclipe, sendo que quem criou a canção é o mesmo músico que está atuando, cantando e tocando em playback. Talvez por isso as personagens do videoclipe – e também os espectadores – não “estranhem” o espaço/tempo em que estão inseridos. É como se já possuíssem uma memória-hábito do meio onde estão inseridas, pois são parte de sua criação.

As três potências que apontei são características intrínsecas de todo videoclipe, e podem ser pensadas como seus modos de agir. Todo videoclipe soa falso, soa fantasmagórico e soa fantástico, porque videoclipes constituem-se de tempos criados dentro de si, imageticamente. São todos, talvez, no extremo, manifestações de tempo-fantasia.

Referências Bibliográficas

DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

FRANÇA, Andréa. Foucault e o cinema contemporâneo. ALCEU, V.5, nº10, p. 30 a 39, jan/jun 2005.

MACIEL, Maria Esther. A poesia no cinema: de Buñuel a Greenaway. Cadernos de Tradução (UFSC), v.7, p. 81-91, 2001.

PRENDERGAST, Roy M. Film music: a neglected art: a study of music in films. 2ª ed. New York: W. W. Norton, 1992.

Audiovisualidades de video clipes produzidos para web (3/5)

AMATEUR E A IMAGEM-MÚSICA

Num outro movimento de produção de videoclipe para web, Lasse Gjersten, um sueco de 22 anos, concebeu um vídeo denominado Amateur. Sua concepção é simples, entretanto a produção muito complexa. Gjersten se registrou em vídeo sentado diante de bateria e piano, tocando apenas uma vez e isoladamente cada peça ou nota de cada instrumento.

Num editor eletrônico de vídeo, ele lançou na linha do tempo as batidas da bateria de modo a compor ritmos, e depois repetiu o procedimento com o piano, dividindo a tela em duas molduras e mostrando ambos os instrumentos sendo tocados por ele, em simultâneo.

É mais ou menos o mesmo processo de The Hardest Button To Button, videoclipe produzido por Michel Gondry em 2003, produzido para música da dupla White Stripes – este, produzido de acordo com os padrões da indústria fonográfica. Simulando uma espécie de stop motion com objetos e pessoas de verdade, Gondry multiplica a imagem dos instrumentos musicais na tela a cada vez que são tocados, como se vê a seguir:

A música começa com uma batida regular de bumbo, sendo que para cada vez que a baterista Meg White, em playback de imagem, pisa no bumbo, ocorre uma troca de plano. Ela reaparece no plano seguinte sentada agora à frente de um segundo bumbo, sendo que o primeiro está ao lado, exatamente onde fora utilizado; e assim por diante. Cada plano do clipe dura exatamente o intervalo entre duas batidas da bateria (ocorrem algumas montagens diferenciadas ao longo do vídeo, mas esta é a base).

A trilha imagética então é extremamente cortada e montada com aparentes falsos raccords. Pra quem não sabe, falsos raccords são cortes bruscos nas trocas de planos, obtendo-se uma supressão de tempo-espaço. São seqüências que não se complementam da maneira tradicional do cinema. Por exemplo: se, num plano qualquer, tal personagem está de pé, no plano seguinte ele pode, abruptamente, aparecer sentado. Ainda que isto cause estranheza, “[…] não impede a compreensão correta da história contada, e só é ‘falso’ na visão de uma ‘veracidade’ convencional, a de certa continuidade do visível.” (Aumont, 2003:116). Mas no vídeo do White Sripes são aparentes porque a montagem eletrônica, que permite cortes ultra-rápidos, é utilizada neste vídeo, o que não caracteriza exatamente um falso raccord. Poderíamos pensá-las antes como imagens do tempo, conforme Deleuze (1990), pois as imagens neste vídeo não são de caráter narrativo, mas situações óticas e sonoras puras, o que também ocorre, com maior ou menor intensidade, em todos os outros vídeos analisados.

Os vídeos para internet se assemelham esteticamente ao clipe do White Stripes pela aparência replicante. Mas, na verdade, há uma diferença: não há playback, e todos os sons são provenientes da mesma fita onde foram gravadas as imagens.

Em Amateur, mesmo que o vídeo deixe claro que a música foi pensada antes de sua concepção, ela só pôde ser ouvida após sua construção, realizada pela edição.  Pode-se perceber isto quando Gjersten toca algumas notas combinadas (acordes) no piano. Ele provavelmente compôs uma partitura para poder lançar posteriormente notas e acordes tocados em ordem correta no vídeo, senão teria que tocar o piano de todas as maneiras possíveis (que são infinitas) para poder compor livremente no software de edição – algo impossível de ser realizado. O instrumento musical aqui não é a bateria ou o piano, mas o software de edição de vídeo. As notas musicais são as tomadas audiovisuais (ou planos) de cada nota produzida pelo piano ou bateria, que no software aparecem como possibilidades de criação musical. Na verdade, seria melhor pensá-las como samplers, que são muito utilizados na música eletrônica. E o produto final, o videoclipe, é como uma caixinha de música tecnológica, uma espécie de partitura eletrônica que reproduz sons de acordo com a maneira como foram programados.

Este é um exemplo claro de imagem-música, um conceito de Silva (2005:2): “Imagem-música é um texto sincrético, isto quer dizer, um texto formado por diferentes linguagens em cujos planos de expressão importam mais as articulações entre sons (musicais) e imagens, do que as gramáticas específicas de cada linguagem considerada isoladamente.”. Imagem e música estão tão articuladas em Amateur, que, escutar a música sem ver a imagem não causa nenhum impacto no ouvinte, que vai pensar que se trata de uma performance tradicional com um baterista e um tecladista tocando um ao lado do outro seus respectivos instrumentos. Da mesma forma, ver as imagens sem áudio simplesmente parecerá que o diretor do vídeo “amontoou” uma série de imagens desconexas.

Estamos diante de uma nova fase do videoclipe musical: sua autonomização. Livre do sistema mercadológico, ele não precisa mais necessariamente divulgar um artista, e a criação da música pode ocorrer tanto antes quanto durante ou depois da imagem. Ou ainda, pode ser criada em paralelo, de forma que ambos tornem-se cada vez mais dependentes. Esse estágio do videoclipe já vinha sendo ensaiado tanto por alguns videoclipes como The Hardest Button to Button quanto pela MTV, como propõe Coelho Netto (1995:163):

Deixando de lado a tentação de tentar entender o que Lênin quis dizer com a frase “O cinema é a arte do século XX”, a resposta da MTV seria: este é o século (o final de século) da imagem e do som, ao mesmo tempo. O século (ou o que resta dele) do audiovisual, termo de forte sabor burocrático que, no entanto, expressa bem o que recobre.

Referências Bibliográficas

AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. Dicionário teórico e crítico de cinema. Campinas: Papirus, 2003.

COELHO NETTO, José Teixeira. Moderno pós moderno: Modos & Versões. São Paulo: Iluminuras, 1995.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

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