Clipe novo do The Gentrificators! THE NAME-DROP TURN

Deu um trabalhão fazer esse videoclipe, mas acho que ficou tri massa. Vale a pena ler, ver e ouvir, vale a pena se engajar nessa causa semiótica.

Às vezes a preguiça de não sair para enfrentar a opressão gentrificadora da urbe é maior, e aí nos sobra produzir agenciamentos coletivos de enunciação de dentro de nossos quartos. QUE SEJA ASSIM, mas que cause alguma diferença na nossa relação estética para com essa Porto Alegre que fecha as portas para a arte de rua, para as miçangas, que quer cercar a Redenção e simular o modelo foucaultiano de prisão ao contrário (voltado para os civis, para as ~pessoas de bem~). ESSE VÍDEO É O PANÓPTICO, VOCÊ NUNCA SABE QUANDO ELE ESTÁ OLHANDO UM VÍDEO QUE VOCÊ MESMO POSTOU NO YOUTUBE, OLHA ALI O REFLEXO DA CIBERSHOT APARECENDO NA TELA!

PÕE NA TELA, PÕE ESSES VAGABUNDOS NA TELA!!!!

Essa é a música que vocês aplaudem? Uma música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado? Vocês não estão entendendo nada!

Plágios, bundamolice e mais microfones – “Oração” parte 2

Mal se passou oito dias e ninguém mais aguenta essa maldição d’A Banda Mais Bonita da Cidade. Há muitas eras atrás (ontem) eu escrevi um post focando especialmente questões técnicas de microfonação deste clipe, provavelmente a parte mais inovadora, já que criticam por aí que são, todos da banda, um bando de bunda moles neo-hippies, além de fazerem a canção mais chata e repetitiva do período 17-25 de maio de 2011.

Ainda assim, o Daniel de Bem, a quem eu agradeço as considerações, me alertou que já fizeram clipes com essa estética, e para a web!

Vamos ouvi-lo:

O Vincent Moon é um cara que faz uns vídeos iguais ao da banda mais bonita da cidade, inclusive ele já esteve em POA para uma mostra comentada de seus vídeos. Mais especificamente, este é o perfil do La Blogotheque, o projeto que criou (ou fez famoso) esse lance de filmar a banda ao vivo (maioria das vezes em planos sequência) em locais inusitados, bem longe da ideia de apresentação musical.

Tem vídeo com o Beirut, que ele filmou várias músicas. Inclusive o video mais famoso que ele fez do Beirut foi da música Nantes, que alguns acusam de que o video d’A Banda Mais Bonita da Cidade não passe de um plágio com trechos desse e de outros vídeos.

Mas chamei a tua atenção pois todos os pontos que tu levantou dos porquês do video ser um bom video, já estão presentes nos vídeos do Vincent Moon. E é por isso que na descrição do video d’A Banda Mais Bonita da Cidade diz “sim, nós adoramos Beirut”. Os caras mandaram bem e o video deles é do caralho. só acho que deveria haver um “inspirado nos vídeos de Vincent Moon”.

Vejam o Nantes:

OK, mas eu discordo, porque neste clipe só tem o microfone da câmera e uma lapela no vocalista, enquanto que no d’A Banda Mais Bonita da Cidade são vários os microfones, e tem todo aquele lance do produtor de áudio mixar os sons de acordo com o enquadramento visual. Pode ser inspirado, com certeza, mas no final os sentidos agenciados são bem diferentes. Pra mim, Oração (o video) é um elogio aos hardwares e softwares de captura e edição de áudio portáteis (inspiro-me em Flusser aqui). Esse clipe seria impossível de ser produzido em 1960, por exemplo, porque os microfones tinham que ser conectados a mesas de som que não saíam do lugar!

Também é diferente do clipe do Beirut porque enquanto este também é uma performance ao vivo, na rua e para um grande público, em Oração é uma performance cinematográfica, pois eles atuam para as câmeras. Aí entram outros valores em jogo, como a potencialidade de um close, por exemplo, que os músicos sabem que pode acontecer, então eles contém as caretas e expressam mais essa cara de maconheiro feliz.

Quero lembrar dois casos contemporâneos de microfonação in loco, mais para salientar as diferenças técnicas entre esses e o Nantes e Oração. Reparem como são quatro métodos bem diferentes:

Primeiro, o clipe Drunk Girls, da LCD Soundsystem. Reparem abaixo que, aos 18 segundos do vídeo, um dos caras vestido de branco, ao colocar um microfone diante do músico, testa ele, e ouvimos esse som. Aí já há uma mudança dos clipes tradicionais: foi preciso provar ao espectador que este não é um microfone cênico. Em seguida, o músico canta, e sua voz vaza por cima da música original, como se fosse um karaokê (exceto por que a sua voz permanece na gravação original também).

Aos 36 segundos, uma garota da banda canta diante de outro microfone. Mas no áudio original ela não faz isso, o que fica bem estranho para nosso olhar acostumado com videoclipes dublados. Aos 1:18, um dos caras de branco toca o alarme de um megafone diante de um microfone, tão alto que a música quase não se ouve. Como vocês podem ver no clipe, o fator bagunça é o fundamental, e para ser mais impactante do que o clipe de Smells Like Teen Spirit, a zona ocorre na trilha sonora também.

Um segundo caso é o clipe Make you feel my love, da cantora Adele, dirigido por Mat Kirkby. O clipe começa com ruídos urbanos e um piano. Abaixo, aos 31 segundos, Adele pega um celular de uma mesinha e ouvimos o ruído dessa ação. Novamente, algo que não é típico de videoclipes. Em seguida ela começa a cantar, e pela acústica da sala e imperfeições, conseguimos reparar que o som da voz dela foi capturado ali mesmo. O piano é uma gravação, que talvez tenham reproduzido para ela no fora-de-quadro, enquanto um microfone, dessa vez também fora-de-quadro, captura sua voz. Se não for isso, pelo menos é assim que soa, mesmo em caixas de som boas e em alto e bom som.

É de se estudar todos estes casos. Por que será que, do nada, os diretores de videoclipes decidiram tirar a mordaça dos microfones? Por que criaram essa diluição das diferenças entre o gravado e o ao vivo?

Malditos hipsters ruralistas: a microfonação em “Oração”.

Mal faz uma semana da publicação do vídeo Oração d’A Banda Mais Bonita Da Cidade e lá se vão duas milhões de exibições.

Mas Oração, a canção, pouco ou nada tem de chocante ou de inovador a ponto de mobilizar tantas exibições. A diferença estaria, portanto, no que foi feito no vídeo. E é preciso ressaltar que com vídeo falo do visual e do sonoro.

Oração, o vídeo, representa a canção com uma execução ao vivo. É um misto de gravação, porque pode ser que eles tenham errado várias vezes até obter uma tomada boa, e de ao vivo, porque ao contrário do estúdio em que cada músico grava seu instrumento em momentos diferentes e em separado, aqui todo mundo gravou o seu ao mesmo tempo. Um cantor, que é o personagem principal, com um microfone omnidirecional (que capta em 360º) portátil na mão, carrega-o e canta diante dele enquanto circula por uma casa. Em cada quarto que passa, outros músicos vão sendo exibidos, e a maioria conta com um microfone diante de si. Os microfones são dos mais variados tipos: tem daqueles compridos e finos para captar os timbres mais agudos no ambiente (1:43), tem montados especificamente para gravar voz de perto (2:10), com tela para abafar os “p” (e cuspes, porque não?), microfones direcionais para captar uma bateria (3:02) e adiante.

Cada microfone está conectado com um disco rígido, cartão de memória ou notebook. Depois de capturarem todos os áudios (durante a gravação do vídeo), o produtor de som sincronizou todas elas em um software de edição de áudio e interferiu nas trilhas.

Entre 3:23 e 3:32, podemos notar que o personagem principal canta diante de um desses microfones. Durante um giro da câmera, ouvimos sua voz repentinamente aumentar de volume, como se a câmera estivesse a capturando. No entanto, o microfone que está diante dele manteve o volume estável. É muito provável que na mesa de edição aumentaram propositadamente sua voz para “parecer mais natural”.

Em vários momentos temos processos dessa ordem. Se no momento da captura todos os microfones estavam abertos, a mixagem tratou de cortar ou diminuir o volume daqueles que não estavam aparecendo em cena. Portanto, o produtor de áudio respeitou a movimentação e o emolduramento da câmera.

Num videoclipe tradicional, os sons provém de estúdios, enquanto que o personagem se dubla. O que está na trilha sonora seria, materialmente falando, a mesma coisa que tem no CD que a indústria fonográfica está vendendo. Nesses, os microfones aparecem inultilmente, apenas como objeto de cena (já que o áudio foi registrado antes). Por isso Oração se mostra bem inovador nos usos dos microfones. Eles saem do estúdios e vão parar na mise em scène, não só como objetos mas como sujeitos, como protagonistas. Eles são os nossos ouvidos no clipe, e se o assistirmos com headfones ou boas caixas de som, poderemos ouvir melhor os sons ficando mais perto ou mais distantes de nós na mesma medida que os músicos se aproximam ou distanciam deles.

Creio que assim fica claro que esse vídeo rompe com algumas lógicas habituais da indústria fonográfica, porque ela não divulga uma música preconcebida e que consta em um CD à venda. Pelo menos, não a mesma música.

Além do mais, a inserção dos microfones em cena traz a ideia de making of, de reality show porque os equipamentos de captura, que por décadas o cinema sempre tentou esconder para deixar a cena realista, hoje tendem a aparecer justamente para dar a mesma sensação procurada nos anos dourados: realismo. No entanto, nos deixam cada vez mais distantes do real, porque fica cada vez mais complicado explicar os modos como essas imagens e sons foram compostos.

É por isso que esse vídeo deveria chamar atenção, mas infelizmente o que atrai os críticos é a repetição incessante do verso, que também faz as vezes de refrão. Mas é muito fácil falar que repete só porque é sempre a mesma melodia e letra. No entanto, a música vai diferindo de si o tempo todo harmonicamente e com diferentes camadas instrumentais, o que só potencializa a repetição daqueles dois elementos. Além disso, a câmera meio que mostra cada verso (ou refrão?) em cada cômodo da casa, contando com instrumentos diferentes. Ou seja: o diretor Vinícius Nisi respeitou visualmente a estrutura sonora de Oração.

Infelizmente também a postura pseudo hipster ruralista malabar indie demodê da banda também acaba obscurecendo tantos procedimentos técnicos interessantes, mas dessa vez não tenho argumentos para contrariar os críticos.