Ruído, ruído por todo lado! …reverberando e ressoando…

Quando se trata da área de Comunicação Social, às vezes eu fico com a impressão de que há dois termos que não são problematizados o suficiente: RUÍDO e SILÊNCIO. Há, claro, teorias na área que apresentam questões relacionadas a ambos, mas o que me parece que falta é um estudo mais GLOBAL, que enfrente o desafio de compreender ambos os fenômenos em diferentes áreas, não só na música, nas sonoridades e oralidade, mas suas outras possíveis manifestações que podem ser, sim, visuais, táteis, olfativas e talvez até gustativas!

Não há dúvida, no entanto, que o caminho de entrada para o desafio de compreender melhor o que é (ou pode ser) ruído e silêncio se dá pela pelo som. E se o leitor tem interesse nessa área, ou até estuda música pop ou audiovisual, tenho duas excelentes sugestões de leitura. São os livros Reverberations e Resonances, ambos derivados de trabalhos apresentados em um congresso sobre ruído na Universidade de Salford, Manchester, ocorrido em 2010.

Ambos os livros abordam o ruído em suas mais diversas concepções. Reverberations, o primeiro a ser publicado (2012), foca na filosofia, estética e política, como seu subtítulo promete, mas também o discute no audiovisual. Os temas por si só já surpreendem, como, por exemplo, um estudo sobre amusia, uma espécie de doença neurológica em que o paciente é incapaz de reconhecer a música como tal – ele a percebe como ruído, e qualquer gênero musical o incomoda profundamente. Benjamin Halligan, um dos editores das publicações, escreve sobre o uso do ruído como agente de sentido quando as palavras não são capazes de significar, de explicar um determinado fenômeno afetivo. Por sinal, há vários capítulos que abordam procedimentos sonoros em salas de cinema para provocar efeitos que o visual não é capaz, por exemplo, o uso de ondas sonoras mais graves do que o ouvido é capaz de ouvir, mas que fazem vibrar nosso corpo e causar sensações de perigo e mal estar. No extremo oposto da faixa de frequência, Robert Walker escreve sobre Cinematic Tinnitus, uma versão audiovisual do zumbido auditivo, outro recurso para fazer o espectador sentir mal estar através do som. Estudos como esses fazem falta numa área que ainda engatinha na compreensão dos seus fenômenos sonoros, que ainda usa Schafer e sua paisagem sonora como muleta para conseguir pular do visual para o sonoro utilizando terminologias que se referem ao visual para compreender o sonoro (essa foi uma provocação medíocre sem base científica, estilo mesa de bar. Aceito críticas).

Reverberations também apresenta reflexões relevantes sobre o silêncio, e mostra a complexidade da dicotomia que este termo faz com o ruído. Às vezes, silêncio pode apenas significar um ambiente em que os ruídos são baixos o suficiente para não nos incomodar, assim como ruídos constantes podem ser importantes para anular ruídos indesejados, gerando, assim, um ambiente “silencioso”. De fato, John Cage já dizia, não existe silêncio total: se você entrar na sala com o melhor isolamento sonoro do mundo, vai acabar ouvindo sua circulação sanguínea agindo nas frequências graves e o seu sistema neurológico nos agudos. Sim, o corpo é uma orquestra sinfônica!

Este ano, 2013, saiu o segundo volume, Resonances, que aborda ruído e música contemporânea. Este particularmente tem me interessado mais, pois tem muitos capítulos que se relacionam com o tema da minha tese. Pra quem aí é pilhado em música pop, este é o livro: encontrei análises muito interessantes sobre MC5, Beatles, Lou Reed, My Bloody Valentine, The Who, e até lo-fi Neo-Zelandês!

Um dos editores, Nicola Spelman, escreveu sobre o famigerado Metal Machine Music, o disco mais bizarro da carreira de Lou Reed, no qual o papai dos indies compôs uma sinfonia de microfonias. Só isso e nada mais. Se você acha isso loucura, imagine que TRANSCREVERAM essa bagunça toda em partituras e executando com instrumentos de orquestra! Esse é o tipo de informação que ambos os livros nos apresentam, acompanhados, é claro, de boas reflexões.

Benjamin Halligan também tem um artigo publicado neste volume, desta vez pensando no shoegaze como a terceira onda do psicodelismo. Se na década de 1960 tivemos o acid rock (rock psicodélico) como representante do Summer of love, e a acid house (dance music) na década de 1980, a virada da mesma década para a próxima apresentaria o shoegaze como o terceiro movimento psicodélico da música pop, incorporando elementos dos precedentes como a repetição incessante de elementos melódicos, ruídos e drones, direcionando para uma viagem lisérgica à base de muita distorção, feedbacks, delays e sintetizadores.

George McKay toma como tema um assunto recorrente na imprensa especializada: na mesma medida que nossos ídolos envelhecem, vemos que estão todos ficando surdos ou com problemas sérios de audição. Já Michael Goddard nos apresenta o longínquo e ainda (morto)vivo movimento lo-fi que ocorreu na Nova Zelândia em 1980, com bandas de rock chicletão e guitarrinhas. Eu mesmo virei fã do Dunedin sound. Para os interessados em sons fora do eixo UK-US, recomendo acessar o site da Flying Nun, a principal gravadora do gênero.

Vale dizer ainda que o congresso do qual derivou ambos os livros também contou com os brasileiros Vinícius Andrade Pereira, José Cláudio Siqueira Castanheira e Rafael Sarpa. O trio fez shows no congresso: juntos formam a banda Simbiotecnoises. Castanheira publicou um capítulo em Reverberations, e Sarpa em Resonances.

E nem apresentei todos os capítulos. Ambos os volumes são enormes, e tem sido ótimos para eu conhecer gêneros musicais, filmes, abordagens teóricas e cenas musicais que eu não fazia ideia que existiam. Nada melhor que atualizar-se com uma boa leitura!

Referências:

GODDARD, M.; HALLIGAN, B.; HEGARTY, P. Reverberations: the philosophy, aesthetics and politics of noise. Norfolk: Continuum, 2012.

GODDARD, M.; HALLIGAN, B.; SPELMAN, N. Resonances: noise and contemporary music. Norfolk: Bloomsbury, 2013.

 

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