VideoSongs da banda Pomplamoose: o que você vê é o que você ouve

Saiu o primeiro artigo derivado do meu projeto de dissertação! Nele eu trato diretamente com um dos tipos de vídeo musical para web que venho estudando: os VideoSongs. O Prof. Alexandre Rocha da Silva assina como co-autor.

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RESUMO A música como protagonista na produção de sentido em vídeos para a web desempenha duas funções: uma estruturante – a que denominamos imagem-música e que oferece as diretrizes a partir das quais se tornam possíveis as relações entre imagem e música –, e outra constituinte – que deve ser compreendida em suas relações de interdependência com as demais linguagens que compõem o vídeo para a web. Foram analisados vídeos compostos por imagens que antes não eram musicais, mas quando mixados, se transformam, através de uma intensa edição das trilhas sonora e visual, em músicas: os VideoSongs de Jack Conte. Para reconhecermos este duplo estatuto, compreendemos a música como uma virtualidade (nos termos de Bergson), capaz de se atualizar, através da aplicação de suas estruturas, em todos os elementos do audiovisual.

PALAVRAS-CHAVE VideoSong; audiovisual; música; web; imagem-música

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A produção musical nos canais do YouTube (5/5)

Nos vídeos que estamos aqui analisando, muitas estratégias permanecem as mesmas: tanto Julia Nunes quanto a Pomplamoose fazem várias versões de músicas famosas. E se quando vamos a um show de uma banda desconhecida, as versões ajudam a entender as influências e propostas estéticas da banda, no YouTube o que acontece é que descobrimos a banda ao buscar pelo vídeo original, e a versão deles acaba aparecendo. Muitos conheceram Julia Nunes porque procuravam pelos Beach Boys. Daí para assistir as músicas próprias dela nos vídeos relacionados é um pulo. Os músicos também têm a noção de que os canais servem mais para quem realmente se interessou no seu trabalho. A atenção é chamada primeiro via palavras-chave. Depois, o músico tenta convencer, no final do vídeo, ao falar com o espectador, que assine seu canal e veja outros vídeos. O que Boyd fala sobre a busca na web também se aplica neste caso:

No mundo digital, costumamos usar a busca para procurar estranhos com concepções similares do mundo. Nós decoramos nossos blogs e vagamos por outros blogs como flaneurs digitais. A blogosfera é a esfera pública imaginada, o lugar habitado por todos os corpos públicos digitais (2006, p. 19, tradução minha).

Assim como é comum em blogs os autores adotarem uma postura firme e manter um estilo de escrita, em boa parte dos trabalhos dos músicos citados neste artigo, podemos encontrar na totalidade de seus vídeos estéticas e técnicas que se repetem. No Pomplamoose, é o VideoSong; no Songs From a Hat, é o desafio de fazer uma música em cima de uma ideia absurda; nos vídeos da Julia Nunes, um primeiro plano tomado da web cam de seu notebook em que ela aparece cantando e tocando seu ukulele. Todos eles repetem a ideia desenvolvida por Lasse Gjerten em Amateur, de montar as canções no software de edição de vídeo, sem fazer playback. Essas propostas se repetem incessantemente em cada vídeo, e por fim o que parece mudar efetivamente são apenas as canções. “O que o público aprecia nessa espécie de consumo não é, em última instância, o fator ‘originalidade’, mas sim, talvez, ‘a repetição e suas mínimas variações’” (ECO apud FELINTO, 2008, p. 39).

É comum na web a exploração intensa de memes (eventos que são rapidamente disseminados pela rede). Em 2007, um vídeo em que aparece o personagem Seu Madruga do seriado Chaves cantando, mas com o áudio da música Florentina do artista brasileiro Tiririca desencadeou não só milhões de exibições, mas estimulou que muitos outros usuários usassem as mesmas imagens para fazer Seu Madruga cantar dezenas de outras canções. E este é só um exemplo; o mesmo ocorreu e continua ocorrendo com vários outros memes. Mais recentemente, um videoclipe novo da banda Radiohead em que o vocalista Thom Yorke aparece dançando freneticamente foi utilizado da mesma forma que com o Seu Madruga, resultando em vídeos nos quais o músico aparece dançando ao som de Single Ladies, Dancing Queen e até o tema de carnaval da Globo.

Como podemos notar, estamos diante de um cenário que abre novos caminhos para a música se manifestar, sofrendo irritações principalmente dos modelos de blog e rede social. Caminhos abertos por artistas ingênuos, que talvez pouco tenham estudado música ou audiovisual, mas estão na ponta da vanguarda, invertendo os tradicionais valores culturais. São tendências nestes vídeos o amadorismo, a agilidade, a baixa definição, o representar a si mesmo ao invés de representar o mundo. Sem dúvida estas são características compartilhadas com vídeo blogs e blogs escritos.

Referências Bibliográficas

BOYD, Danah. A blogger’s blog: exploring the definition of a medium. IN: Reconstruction: studies in contemporary culture, v. 6, n. 4, pp. 1-19, 2006. Disponível em: <http://reconstruction.eserver.org/064/boyd.shtml>. Acesso em 11 abr. 2011.

FELINTO, Erick. Videotrash: o YouTube e a cultura do “spoof” na internet. Revista Galáxia, São Paulo, n. 16, p. 33-42, dez. 2008.

A produção musical nos canais do YouTube (4/5)

Tanto Abby Simmons como Pomplamoose registram seus vídeos em casa, na sala, na cozinha, no quarto, mostrando, após as canções, o “backstage” de seus vídeos: a vida cotidiana, o que dá uma característica intimista, um efeito reality show. Em paralelo, a ideia de que blogs são como diários íntimos é muito forte. Mesmo hoje, após o crescimento exponencial dos blogs jornalísticos, literários e outros, é comum a exposição íntima por muitos usuários. E nos vídeo blogs musicais não é diferente, como podemos ver. Mesmo os músicos que estariam preocupados mais em divulgar seu trabalho sucumbem à tentação de exibir um pouco de sua “vida real”.

Essa atitude de não sair do quarto faz lembrar Kilpp (2006, p. 10) quando fala da televisão. Para a autora, na maior parte do tempo, ao invés de a TV espelhar a sociedade, ela tem um espelho voltado para si, como acontece em programas como Video Show, TV Fama, Studio Pampa e Big Brother Brasil. A TV imagina a TV. É o que acontece também com os vídeo blogs e seus produtores: estão todos criando um universo à parte do mundo dito “real”, “offline”, como num sonho adolescente, fabricado por adultos que não querem envelhecer: “meu quarto, minhas regras”. Fugindo um pouco da música, não dá pra não mencionar os vloggers brasileiros de sucesso, como Ronald Rios e P. C. Siqueira: ambos num primeiro momento parecem falar com o internauta, mas ao ultrapassarmos a opacidade do teor conteudístico3, vemos que não passa de uma construção de imaginários. “É isso que, com a TV, estamos a perceber: que a nossa é uma época de espelhos virados” (KILPP, 2006, p. 10). Adicionemos aí os vídeo blogs.

Quando Julia Nunes (outro exemplo de sucesso, que faz seus vídeos usando o mínimo de software e apenas sua voz, um ukulele e alguns truques de montagem) faz vozes de fundo ao gravar uma versão de God Only Knows dos Beach Boys4, é interessante notar que na maior parte do tempo ela olha para a webcam (abaixo, à esquerda), mas às vezes desvia rapidamente o olhar para baixo (à direita).

 


 

Ela está olhando a sua própria imagem capturada, que aparece espelhada no monitor de seu notebook durante a gravação, cacoete que se repete durante a performance de muitos outros vloggers. Eis os espelhos virados da TV aparecendo em um novo formato. Se em reality shows como o Big Brother, em que as câmeras ficam escondidas por detrás de espelhos vazados, como os de inquérito policial, nos vídeo blogs eles são espelhos digitais, que permitem que o autor do vídeo seja diretor de si mesmo. Ele pode fazer tudo sozinho.

Isso exerce uma influência enorme nos modos de produção dos músicos. Repare que tanto Lasse Gjersten em Amateur, quanto nos VideoSongs da Pomplamoose, e nos vídeos de Julia Nunes, Tay Zonday e Abby Simmons, não estamos mais tratando de videoclipes no sentido tradicional do termo, porque as imagens que nos são mostradas foram tomadas exatamente no momento em que foram gravados os áudios. Não há playback. É um híbrido, uma performance “gravada ao vivo”. Todos eles não estão apenas se preocupando com a afinação, mas com o enquadramento também (o que deixa o vídeo ainda mais intimista).

Entendendo que os vloggers colocam “um espelho voltado para si diante da lente da câmera”, não é de se estranhar que, mesmo com todo o sucesso que os músicos de vídeo blogs conseguem, acabam estabelecendo parcerias justamente com outros vloggers, como se esse espelho fechasse as janelas para “o mundo lá fora”. A Pomplamoose praticamente atravessou os Estados Unidos de carro para encontrar Julia Nunes para gravarem canções juntos. É como aquela máxima “blogueiro cita blogueiro” (MALINI, 2008): eles não precisam da indústria fonográfica nem de outras mídias para se divulgar. Basta um linkar o outro. Isso demonstra a força do YouTube como rede social: pessoas com ideais comuns acabam se aproximando e se conhecendo, estabelecendo parcerias criativas.

Referências Bibliográficas

KILPP, Suzana. Panoramas especulares. In: UNIrevista, São Leopoldo, Vol. 1, n° 3, julho 2006.

MALINI, Fábio. Por uma Genealogia da Blogosfera: considerações históricas (1997 a 2001). In: XIII CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO NA REGIÃO SUDESTE, 2008, São Paulo, Anais, 2008, São Paulo: 2008.

Ed Wood: o primeiro diretor moderno?

Fiz algumas considerações para o debate do filme Glen or Glenda, exibido no Auditório 2 da Fabico (UFRGS), às 11h, hoje, pelo Clube do Pop.

Ed Wood em "Glen or Glenda"

Wood nunca teve dinheiro, nem bons patrocinadores, mas tinha muita força de vontade, inspiração em Orson Welles, e técnicas e estratégias para produzir seus filmes de um jeito ou de outro. Para produzir Glen or Glenda (1953), fez tudo o que podia ser feito para reduzir custos: atuou como o crossdresser suicida, pôs a namorada para atuar, pôs diversas pessoas que nunca haviam atuado para encenar seus desejos em forma de cinema. Só nesse aspecto, Wood teria antecipado o neo-realismo italiano de Pasolini, que utilizou pessoas comuns para refazer a história de Jesus. Mas só porque é trash, ingênuo e não tem uma crítica por detrás dessa opção, Wood, que teve essa ideia onze anos antes, não é reconhecido.

Ele conhecia algumas pessoas do baixo escalão de Hollywood, como um velhinho que trabalhava nos arquivos de um estúdio. Neste arquivo, o material catalogado eram os stock footages, que abrigavam películas inutilizadas. Encenações de guerras, bombas explodindo, autoestradas, planos gerais de cidades, planos detalhes de máquinas industriais, aviões decolando e muitas imagens que não mostravam rostos eram ali arquivados. Embora o velhinho achasse tudo aquilo lixo (“trash!”), Wood apanhava alguns, na crença de que conseguiria compor um filme. De novo, 52 anos antes do YouTube aparecer e as práticas de recortar, copiar, editar e remixar se tornassem tão simples e tão empregada. Reconhecimento? Zero.

Assustador.

Um terceiro aspecto muito relevante de sua obra: em vários momentos, por restrições orçamentárias ou outros inúmeros problemas que sua equipe passava, Wood era obrigado a fazer troca de planos que quebravam o eixo ou que suprimiam um tempo de uma cena, ao contrário do que o cinema clássico normatizava. No filme Plano 9 do espaço sideral (1959), Wood alterna planos que ora são dia, ora são noite em uma mesma cena num cemitério, porque não tinha mais dias para alugar a câmera e achava que as cenas de dia ficaram tão boas quanto as noturnas. Cinco anos depois, um francês muito estudado optou por cortar partes do meio de um plano para reduzir o tempo do filme (de novo por questões orçamentárias), e, mesmo sem crítica por detrás disso (apenas “uma opção estética”), Godard hoje é reconhecido como o homem do jump cut. Ora, pois!

Saindo um pouco das questões estéticas, para produzir o filme Plano 9 do espaço sideral, Wood conseguiu fazer uma parceria com uma igreja batista para arrecadar fundos. Para não perder esse investimento, Wood teve que alterar algumas coisas, como o próprio título do filme, antes Grave Robbers from Outer Space, e teve que batizar vários dos atores. Em Glen or Glenda, temendo que sua namorada soubesse que ele era crossdresser, só a inseriu em cenas que ela não pudesse desconfiar. Na première, o namoro terminou. Provas de que Wood era capaz de usar as pessoas envolvidas a seu favor, coisa que reality shows e vários outros programas de TV vem praticando sem dificuldade. De novo, décadas atrás.

Por fim, Wood conseguiu contratar Bela Lugosi (o Drácula original do cinema) para atuar em vários de seus filmes, embora velho, caquético, viciado em drogas e álcool. Lembra um certo Tarantino que agiu da mesma forma quarenta aos depois.

Por isso eu recomendo assistir aos filmes desse grande diretor que é Ed Wood, um dos pioneiros na arte da dissimulação e das restrições orçamentárias. Wood jogou contra a lógica capitalista, e ganhou (em seus termos). Mais do que isso, é um diretor que põe à prova estéticas cinematográficas atribuídas a vários diretores modernos, trazendo à superfície a questão: “se a intenção do artista não importa para a análise, porque as intenções de Wood o invalidam como tal?”

Os anos noventa que não conhecemos

Depois de ir no Boom Shakalaika, acabei relembrando dos meus anos noventa. Eu acho que dá pra sintetizar assim:

91-93: entre 6 e 8 anos, eu tinha uma TV com uma antena UHF, aquela em formato borboleta, coisa que poucos tinham na época, mas que, desconfiava eu, não devia ser cara. De qualquer modo eu tive MTV na minha televisão desde o seu início. Alguns momentos ainda perduram na minha memória: lembro aos 8 anos curtindo Sliver do Nirvana no meu quarto; do Gastão apresentando Gás Total; e, principalmente, de Beavis & Butt-head. A estética da sujeira, do big muff imperavam num momento em que o underground era o mainstream.

94-97: de algum modo eu esqueci o rock entre meus 9 e 12 anos justamente quando ele deveria ter aflorado. Eu parei de ver MTV, e a imposição que a novela Quatro por Quatro, o retorno da música lenta, a dance music e, principalmente, as reuniões dançantes organizadas pelas meninas me fez comprar CDs como o da novela já mencionada, do Skank, do U2, do Bon Jovi, e, pasmem, da Shakira. Engraçado que o mais chocante que havia à época era Mamonas Assassinas. Achávamos tudo bárbaro, de qualquer maneira.

98-2000: a década fecha entre meus 13 e 15, quando redescobri o rock e a MTV pela TV por assinatura. Reencontrei o Nirvana num especial da MTV de aniversário de morte de Cobain. Isso me levou a ouvir muitas bandas que giram em torno do grunge: Smashing Pumpkins, por exemplo. Também conheci alguns queridinhos da MTV Brasil como Oasis e Blur. Radiohead foi uma joia rara graças a única outra opção para se conhecer rock que sabíamos naqueles tempos: a showbizz.

2000-2011: a década seguinte me reservou algo muito especial: um revival dos anos noventa, mas de uma década que eu nunca vi. Não estou falando do Boomshakalaika, porque esta festa se propõe a tocar exatamente o que ouvíamos nos 90. Mas, com a internet, acabei descobrindo bandas muito importantes para a década passada que eu não fazia a menor ideia que existiam. Nos anos 2000, eu conheci os anos 90 que eu nem sabia que existiram

Pulp; Lemonheads; Pixies; Tom Waits, Cake, Air, Cat Power, Death In Vegas, My Bloody Valentine, Flaming Lips, Pavement, Superchunk, The Breeders, Dinosaur Jr, PJ Harvey.

São só alguns nomes, mas de bandas super reverenciadas, algumas nascidas nos 80 mas que também marcaram os 90, e que se vierem pro Brasil tocar, eu iria só por tudo o que eu ouvi deles nos anos 2000. A MTV pode até ter me mostrado alguma dessas bandas, mas não as emoldurava com a importância que lhes são dadas hoje. Por causa do modo como a mídia operava na época, algumas bandas levavam tempo para amadurecer no Brasil. A Cat Power fez um show por aqui anos atrás e foi vergonhoso de vazio. Mas, provavelmente com a web, os hypes a conheceram por outros canais e hoje Porto Alegre está cheio de hipsters pra provar o contrário.

My Bloody Valentine é o caso mais chocante pra mim. Nunca imaginei que fosse ouvir uma banda que soasse tão moderna mesmo sendo de 1991. Pra mim Loveless ainda é um dos discos mais modernos da música pop, e se eu colocar ele do lado de um Beady Eye ou qualquer outra porcaria nova, o disco do MBV parece ter vindo do futuro. Mas é um som muito chato pra ser transmitido pela TV.

Acho que Tom Waits sofreu o mesmo problema. Só lembro daquele clipe dele para I don’t wanna grow up que passou no Beavis & Butt-head. Não tenho memória alguma de PJ Harvey, Superchunk, Pavement, Lemonheads, Pulp nem Pavement, e olha que eu passava horas a fio diante da MTV.

Essas são coisas que só a indústria fonográfica pode explicar. Não passava aqui porque os discos também não foram fabricados no Brasil? Não passava porque não tinha público? Difícil saber. Mas lembro que era raro achar um disco de rock ou pop pra vender se a banda não tivesse passado ao menos um clipe na MTV Brasil. A Multisom sempre estava abastecida de Pink Floyd, Black Sabbath e Beatles, mas especialmente de Pearl Jam, Nirvana, Alice In Chains, Metallica, Oasis…

Depois começou a onda dos balaios: CDs a 10 reais. Aí começou a aparecer umas coisas antigas que eu nunca via nas estantes principais: Living Colour, Black Crowes, Sonic Youth, Cake. Como eu só comprava o que eu sabia que ia gostar, e a MTV não me alimentava disso, descobri essas bandas primeiro na web, e descobri com o mundo digital também que os discos não faziam mais falta, apenas ocupavam espaço e comiam meu dinheiro.

Aliás, vocês lembram quanto custava um disco novo em 2000? Eu lembro de ter pago 23,90 pelo Neon Ballroom do Silverchair. Onze anos depois, com esse preço eu levo minha namorada no Subway. Quanto valia 23,90 na época? Lembro também que uma pizza grande custava 14 reais. Hoje custa 30. Será que isso quer dizer que na época um CD custava quase 50 reais para nossos bolsos? Onde estávamos com a cabeça?

Os anos 90 que vivemos em Porto Alegre foram únicos.

A produção musical nos canais do YouTube (3/5)

Quando se trata de blogs, uma das definições mais aceitas entre pesquisadores é a da organização cronológica: “as últimas atualizações aparecerem no início do site e as mais antigas abaixo, e cada bloco de texto é obstinadamente encabeçado pela data (e horário) da publicação” (SIBILIA, 2005, p. 48). Nos canais do YouTube, a ordem cronológica está lá no registro de cada vídeo, mas não é relevante para os músicos. O vídeo atual é destaque, mas os antecedentes não aparecem em ordem cronológica na barra direita. E mesmo que estivessem, pelo menos para boa parte dos músicos, não faria muita diferença – afinal, as canções devem ser atemporais – o usuário navega pelos vídeos dos canais como navega por um CD, de faixa em faixa.

Mas há também os músicos que tentam evidenciar uma cronologia em seu trabalho, como exemplo do canal Songs from a hat, de Abby Simons, cujo projeto, finalizado, utilizava um método de criação de músicas desafiando seus assinantes: em vídeos musicais de periodicidade semanal, sugere ao espectador inserir um possível título de música nos comentários do vídeo. Na semana seguinte, ela imprime os títulos sugeridos em tiras de papel, as coloca em um chapéu, e sorteia uma, que será tema e título de uma música que ela deve compor e publicar no YouTube em uma semana. O projeto terminou no 35º episódio. Sabendo que o YouTube não indica a data dos vídeos, especialmente na busca, Abby os numerou em seus títulos.

Embora os músicos tenham de recorrer a artifícios para explicitar que seu canal é um vídeo blog, no topo de cada vídeo aparece o nome do canal. Mesmo quando o usuário não acessa o canal, ele exerce sob o vídeo uma espécie de “entidade”, o significa, o emoldura (KILPP, 2005). Como acontece muito de um mesmo vídeo ser duplicado por outros usuários (o que acontece mais com digitalizações de programas da TV), funciona como uma espécie de assinatura do autor do vídeo, a garantia de que foi feito por ele.

Referências bibliográficas

KILPP, Suzana. Mundos televisivos. Porto Alegre: Armazém Digital, 2005.

SIBILIA, Paula. A vida como relato na era do fast-forward e do real time: algumas reflexões sobre o fenômeno dos blogs. Em Questão, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 35-51, jan./jun. 2005.

 

 

 

 

Daniel Johnston and his Worried Shoes

Eu já comentei em posts dispersos por aí a obra de Daniel Johnston. Esse ano comemoramos o cinquentenário de nascimento deste músico controverso em suas ações mas muito direto em sua obra.

Vocês podem pesquisar por aí, mas em resumo, Daniel é de família religiosa, e incomodou muito os pais que queriam vê-lo contribuir para a obra de Deus ao invés de só querer saber de desenhar e compor músicas. Logo cedo, ao final da adolescência, foi diagnosticado como maníaco depressivo, o que piorou ainda mais depois das várias viagens de ácido no começo do anos 80. Em meio a tudo isso, Daniel fez por conta própria várias fitas K7 gravadas na garagem de casa com dezenas de canções próprias em cada uma. Ele passava cópias para quem visse na rua, e sua fama no meio musical independente tomou grandes proporções.

Mas como era autodidata maluco que era, a maior parte do seu trabalho soa desafinado, o que para muitos é o charme, e que evidenciaria uma estética da baixa definição, que nos faria ignorar por um tempo as regras e padrões para concentrarmos em nos sensibilizar mais e analisar menos.

Daniel é direto, cru, singelo.

Recomendo a audição da canção Worried Shoes. Na foto que compõe o vídeo, Daniel aparece ainda são, antes da maldição que o tomou nos anos 1980. Aliás, Daniel entrou numa paranoia em que ele era enviado de Deus e tinha que ajudar as pessoas a se livrar do Satanás. Quando foi pra Nova Iorque em companhia do Sonic Youth, Daniel passava metade do show discursando sobre o número 6 (o diabo. O DIABO), o 7 (Jesus), o 8 (Deus, eu acho, não lembro), e 9 (o homem). “Number nine, number nine, number nine”, ele falava, em menção à música dos Beatles. A partir daí o discurso se perdia ainda mais. À noite, Daniel sumiu do apartamento, e os membros do Sonic Youth foram procurá-lo. Encontraram Daniel pregando a quatro ventos com o violão no ombro.

Daniel é tão referenciado que suas composições já foram regravadas por Beck, Butthole Surfers, Wilco, Sonic Youth, Pearl Jam e uma penca de outras bandas.

A mesma canção de antes, agora na voz de Karen O, do The Yeah Yeah Yeahs, mais limpa e bonitinha. Fica a seu cargo decidir qual é melhor. Trilha sonora de Onde vivem os monstros. Não preciso dizer que Spike Jonze é outro que é fã da obra de Johnston.

Por fim, depois de ter ficado num sanatório no começo dos anos 90, Daniel passou a ser intensamente medicado, e hoje toma cerca de 15 pílulas por dia para manter “no nosso mundo”. Se é difícil encarar Worried Shoes original sem sentir o peso da HUMANIDADE, que tal a densidade da exibição abaixo, datada de 2009? Daniel treme não por vergonha, mas provavelmente por causa da medicação. Adicione aí vida sedentária, vício em cigarro e muita Montain Dew, o que refletiu em obesidade e rouquidão. Daniel vive com os pais, idosos, e é cuidado por eles, que até hoje tem de lhe fazer  almoço, janta, levar pro médico e assim por diante. Eles também são seu empresário, e, embora tenham levado muito tempo para aprender a importância de Daniel como artista, hoje já não o veem com o diabo no couro.

Pelo menos, de acordo com a mamãe Johnston “de vez em quando ele arruma o próprio quarto”.

Se Daniel não é uma lição de vida estilo Luciano Huck, ao menos ele é capaz de mexer com as nossas, mas se de modo diabólico ou celestial vai depender do ouvinte.