Sobre o entretenimento online

Alguns argumentos caóticos que rascunhei para o programa dos alunos na Unisinos.FM (103.3), que participei em 20/4/2011, falando sobre o grupo de pesquisa da Adiana Amaral e Fabrício Silveira de Comunicação e Culturas do Entretenimento. Ambos participaram, além do meu colega de mestrado Márcio Telles, que estuda futebol da(á) televisão:

Exemplo de Meme: Rage Guy (fffuuuu)

É fundamental compreendermos as culturas de entretenimento, pois elas nos dizem muito sobre a sociedade atual. Eu venho me interesando bastante sobre a produção amadora da web. Tem um site chamado KnowYourMeme que fisgou isso. Ele “cientificizou” (ainda que ficcionalmente) as bobagens que os internautas criam em fóruns, e por isso é super valorizado. As pessoas adoram encontrar sua produção ali. Acho que atualmente, na web, todo mundo se sente produtor de conteúdo, e todo mundo acha que tem o direito de ser considerado interessante. Por isso que o Know Your Meme cresceu, porque deu legitimidade pro conteudo dos amadores. E por isso que todo mundo escreve sem parar no Twitter. Assim como vivem dizendo que muitos usuários tem um lance de serem nacisistas, quando batem sua própria foto, tem também os que sonham em ser os caras que fazem os melhores textos sarcásticos sobre a sociedade. Justamente por isso também surgem Tumblrs como o Classe Média Sofre, que coleta frases no Twitter e Facebook de pessoas reclamando da vida de barriga cheia.

Glamour cultural, isso sim!

Acho que a ideia de lixo cultural assim fica cada vez mais descreditada. Tem um musico moderno chamado Olivier Messiaen. Ele faz umas obras esquisitas, mas muito elaboradas, o que fez um reporter uma vez chamar a obra dele de “experimental”. O Messiaen fez questão de responder: “eu não sou um músico experimental. eu faço experimentos, mas estes eu jogo fora”. Boa parte da produção da web não são “lixo”, mas é aquilo que o seu autor conseguiu fazer de melhor. A Sthefhany do Cross Fox, por exemplo. Só considera a obra dela lixo quem tem aquele olhar colonialista, burguês, intelectualoide. Em geral, quem consegue abstrair as questões políticas, de classe, as mazelas sociais consegue se divertir com esse tipo de conteúdo. A Bixa Muda de Juazeiro é um exemplo muito forte disso. Algumas pessoas para as quais eu mostrei o vídeo não acharam nem um pouco engraçado. Não é uma questão de alienação, é que simplesmente o humor às vezes precisa abstrair as desgraças. Vejam South Park, por exemplo, que explora esse tipo de humor mas sempre traz uma crítica.

Bixa Muda de Juazeiro

Quase todos os tipos de valor de juízo vem sendo postos a prova desde 1919, mais ou menos, na época que Stravinski teve a première de Sagração da Primavera, saiu o manifesto antropofágico e a arte moderna em geral. Mas geração após geração, as pessoas seguem tentando negar isso. Existe um juízo de valor enorme que valoriza os produtos culturais do mesmo jeito que a escola de Frankfurt tentava fazer. Mas a verdade é que esses valores pouco ou nada dizem sobre os produtos.

Mas assim como os juízos de valor (que muitos cientistas fazem por detrás de seus texto), valorizar uma coisa só por sua fama tambem não tem muita lógica. Na web, por exemplo, não interessa muito quantos views o cara obteve, nem qual foi a obra mais famosa. Interessa o que a obra do cara faz as pessoas mudarem seu jeito de ver o mundo. É que nem aquele papo do Heidegger: uma vez, ao palestrar sobre assuntos filosóficos, um aluno perguntou “Mas o que que eu vou fazer com essas coisas?”, como se a filosofia devesse ser um utensílio, ou algo do tipo. Heidegger respondeu “A questão não é o que você deve fazer com esse conhecimento, mas o que esse conhecimento está fazendo contigo”. O entretenimento na web é feito por todos. Todo mundo está mexendo com todo mundo.

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