A semiótica como teor conteudístico

Faz menos de um mês (em agosto de 2010) que o vídeo Interior Semiotics virou tendência e se viralizou pelo mundo. Este vídeo, de acordo com a descrição do site Know Your Meme, apresenta Natacha Stolz ao mundo: “uma jovem artista universitária realizando uma performance artística bizarra, que inclui a abertura de uma lata de SpaghettiO’s [espaguete pronto pra comer, com molho de tomate], esfregar o conteúdo da lada em sua camiseta, se masturbar e então urinar na lata”.

Eis o vídeo:

O que nossa heroína balbucia: “Everything is shit. We apply meaning, value, and worth to the shit surrounding us. We live by this meaning and by our words. We live by worth and apply value, but everything is shit.”

Reparem que sua poesia propõe que não há valor algum na merda. Tampouco o signo merda, que ela utiliza em seu texto. Temos aí um típico caso de contradição artística, o que muitos justificam como “licença poética”. Numa perspectiva kantiana, a artista pretende mostrar que há uma barreira entre o real (que ela chama merda), e nossa percepção do real. Como se vivêssemos à parte do mundo que pertencemos, como não conseguíssimos chegar à coisa de fato. Tudo em inglês é everything, todas as coisas. Ora, se ela é capaz de perceber as coisas e denominá-las de merda, não está aplicando sentidos e valores às coisas? Assim, estaria afastando-se da perspectiva heideggeriana, fenomenológica, das coisas, elas mesmas?

Segundo ponto: o título Interior Semiotics pouco reverbera na obra. Embora a utilização de pelo menos três fluidos corporais – os quais bem ou mal são iconicamente significados quando de sua utilização na performance –, Stolz parece fazer o tempo todo uma Semiótica para o outro. Quero dizer com isso que, dadaísticamente, a artista provoca um choque que é quase tátil no seu público. Nesse sentido ela consegue ser bem contemporânea: “eu é um outro”, comentaria Deleuze.

Terceiro ponto: mais uma pessoa que vira piada mundial por se levar a sério demais. Assim como Tay Zonday (ver Chocolate Rain), Star Wars Kid e David (depois do dentista), Stolz adquire um tom humorístico acidentalmente. Esse tom é característico de muitos memes na internet.

Quarto ponto: virais de internet são a MTV desta década. Teixeira Coelho dizia que a Music Television vivia num universo à parte: enquanto os E.U.A. bombardeavam o oriente médio em 1991 na CNN, ao trocar de canal você poderia relaxar ouvindo Express Yourself. Repare que para boa parte dos virais de internet os tradicionais valores éticos e estéticos vão pra banha! O negócio é bagaceirice e non-sense!

Eu ainda me lembro quando descobri MC Jeremias e apresentei este protótipo de post-videoclip para alguns amigos. Muitos ficaram chocados com a abordagem de Givanildo Silveira e equipe, tratando Jeremias como se fosse um origami: dobrando-o à vontade.

Mas é isso que fazemos sempre que assistimos à estes vídeos: nos aproveitamos da ignorância alheia para nos divertir. Hoje, vídeos ainda mais ridicularizadores do que MC Jeremias, como o da Bixa Muda, não chocam mais tanto. À uma fase de choque sempre procede uma neutralização.

Apesar dos pesares, é algo bem mais sutil do que os espanhois faziam para passar o tempo nas américas ou o que os nazistas faziam para fazer avançar a ciência. Este só pode ser um sinal de um avanço no processo civilizatório – a compensação da repressão de nossos desejos mais selvagens é apaziguada ao gargalhar às custas de um travesti que diz, contente: i’m burning!

No fim, assim como Stolz, não falei nada que tinha a ver com o título do post. E acho que a proposta rende. Me parece que a ressignificação é a palavra de ordem desses vídeos de internet, seja nos remixes, seja na nossa interpretação. A performance de Stolzs, para muitos dos que viralizaram o vídeo, importa menos do que falar mal dos hipsters que a assitem, assim como para falar mal do governo, que dá bolsa para “essa gente” ao invés de inverstir em saneamento básico.

O que acontece nesses vídeos é o surgimento de uma semiótica por extensão, extrínseca ao vídeo. Vou pensar melhor nisso.

PS aos desprovidos de senso de humor: estava sendo sarcástico desde o início.

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