Sonatas e interlúdios de John Cage em POA!

Eis uma rara oportunidade de conhecer o trabalho de John Cage ao vivo. A dificuldade em executar suas peças reside no fato de que ele usava um piano preparado: inseria parafusos, pregos e outros tipos de coisas perto das cordas do piano, o que nem sempre é fácil de se arranjar. Ele fazia isso para que soassem de uma maneira diferente do habitual, abrindo nossa percepção para o “sons que os sons fazem”, ao invés de ficarmos presos à ouvir sons mas pensando em notas musicais.

Eis um teaser:

E o serviço:

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Grupo Aberto de Pesquisa em Vídeos Musicais

Estar na Intercom me fez lembrar do tempo do colégio.  Pouca coisa me interessava, chegava cansado pra assistir, mas fiz belas amizades. Meu interesse de pesquisa está em música e audiovisual. Ou, só para ficar mais claro, em videoclipes. 

Lá em Caxias acabei conhecendo outros pesquisadores de videoclipe. A primeira foi a Ariane Holzbach, com quem tive mais diálogo. No congresso, ela apresentou um artigo sobre a história social de surgimento do videoclipe, motivado pelo fato de que nós, pesquisadores , nos concentramos em reclamar de uma bibliografia magra sobre o assunto, e partimos para a descrição do seu surgimento. E nessas passamos pela história de sempre: nasce com os Beatles, estetiza-se com o Bohemian Rapsody do Queen, massifica-se e narrativiza-se com Thriller do Michael Jackson, e por aí vai. 

No entanto, há uma produção muito maior do que se pensa sobre videoclipes, só que ela é calcada na repetição dessa história. Como se todos nós que o estudamos nos setissemos na obrigação de explicar e contar ao leitor leigo essa história. É assim que Laura Correa se sentiu, quando me contava sobre a produção de seu artigo. Laura compôs o artigo quando estudava na UFMT, e à época, não contava com outras pessoas por perto estudando o mesmo objeto, ao contrário do cenário em que a Ariane e o Thiago Soares (outro pesquisador de videoclipe que encontrei na Intercom) se encontram: em universidades onde há muito mais alunos interessados no objeto. 

Talvez essa tenha sido o motivo para Laura contar uma breve história do videoclipe antes que pudesse falar do que o título do artigo propõe:  As transformações das mídias massiva, segmentada e em rede evidenciadas pelo videoclipe. Eu senti a mesma obrigação no meu trabalho de conclusão: o primeiro capítulo trata também da história, faz os mesmo caminho, mas para tratar de outros problemas.

A essa altura, nem preciso dizer que o Tiago e a Ariane também um dia correram esse percurso! E aí comecei a me perguntar: porque é assim?

Parece até trabalhos de filosofia, em que o cara tem que ficar páginas a fio retomando tudo o que já foi dito para poder dizer o que realmente pensa. Discutindo com a Ariane, começamos a pensar se já era ou não hora de pular essa história e ir pro que interessa, citando algum artigo que tenha contado essa história. Por outro lado, comecei também a me dar conta de que cada um de nós conta essa história um pouquinho diferente. Num trabalho que escrevi com Suzana Kilpp, Videoclipe: da canção popular à imagem-música, fazemos este caminho, mas para mostrar como o objeto tendeu para fazer articulações cada vez mais intensas entre o visual e o sonoro. Não duvido que uma reunião de artigos que contem esta mesma história em um livro não demonstraria perspectivas bem diferentes.

Pensando nisso e em muitos outros problemas entre os pesquisadores de audiovisual e música, criei o GRUPO ABERTO DE PESQUISAS DE VÍDEOS MUSICAIS, ou pela sigla horrorosa, GAP-VM. Bem, este é uma lista de discussão livre para que a galera se apresenta e conheça as pesquisas um dos outros. Assim, ao invés de nós, estudantes de videoclipe, pesquisarmos sozinhos cada um no seu estado, possamos discutir juntos nossa produção e garantir que cada um tenha uma perspectiva bastante autêntica.

Quem for pesquisador ou conhece alguém que se interessa, vai fazer monografia, trabalho de conclusão, o que for, basta se convidar por comentário pelo blog aqui. Será muito bem vindo.

Não comece uma banda!

Essa é a proposta da galera do VideoSongsBlog. No post, eles sugerem que uma alternativa para quem tem dificuldades de sustentar uma banda seja produzir vídeos musicais em que os músicos se reúnem virtualmente. Leia a matéria em inglês aqui.

Penso que já não seja uma novidade pra quem curte vídeos amadores da web, pois já é recorrente a composição de músicas através do método VideoSong. Curioso? Clique aqui.

Mas trata-se do seguinte: com um bom software de edição de áudio multipista (Cubase ou ProTools) e outro de vídeo (Final Cut ou Première), é possível gravar uma canção com pessoas dos quatro cantos do mundo! E nem é tão complicado assim. Tem vários métodos, eu sugiro um bem simples:

1) Grave-se em vídeo fazendo uma versão “suja” de uma canção, tipo voz e violão. Use um metrônomo durante a gravação e deixe-o evidente no som. Se possível, grave o áudio com uma placa de áudio profissional. Importe esse áudio para o editor de vídeo e sincronize.

2) Mande esse arquivo de vídeo para amigos que toquem instrumentos diferentes. Aí o baterista da Malásia grava seu vídeo, o baixista de Kuala Lampur o seu, o ukulelelista de Oklahoma o seu. Eles farão que nem você fez no passo 1, mas ouvindo a sua gravação.

3) Peça que seus amiguinhos enviem seus vídeos.

4) coloque todos os vídeos sobrepostos em camadas no editor de vídeo.

5) Como você usou um metrônomo, bastará sincronizar um por um a partir da versão suja que você fe no passo um.

6) Exporte, publique e torça para que o YouTube lhe convide a inserir publicidade no seu vídeo. Somos foda!

Impressões da Intercom 2010 – GP Televisão e Vídeo

Embora já tenha participado de alguns congressos de comunicação, é apenas a segunda vez que participo da Intercom, apresentando trabalho. Este ano, resolvi fincar pé no GP de Televisão e Vídeo, cujas mesas assisti todas.

Este GP é novo, decorrente de uma reformulação no DT de audiovisual. Mas infelizmente alguns dos trabalhos ali apresentados não corresponderam muito ao processo de reformulação. Perdi as conta de artigos que pecavam pela insuficiência de arcabouço teórico, além da falta de cientificidade. Mais pareciam posts extensos de blogs, alguns até sendo lidos em voz alta.

Fica difícil não falar nada enquanto leio para a disciplina de Metodologia textos de Morin, Arendt, Bachelard e Bourdieu sobre a ciência. Boa parte dos trabalhos pareciam mais observações arbitrárias, sem método, sem rigor, como nos tempos do espírito pré-científico. Pode até ser que a minha apresentação caia no mesmo quesito e eu esteja cego por situação, então, quem assim considerar, por favor, blogs são feitos para comentar!

Algumas coisas que me incomodaram no GP: análises comparativas cujos objetos a serem comparados foram escolhidos “a dedo”, isto é, sem um critério rigoroso; pesquisadores descrevendo seus próprios laboratórios de audiovisual, mas sem apresentar uma análise do mesmo (peraí, não ensinam os jornalistas a não pautarem as coisas as quais eles se envolvem? Achei que na ciência também era assim); artigos mal redigidos, confusos e com erros ortográficos; trabalhos que não apresentavam novidades, provavelmente porque seus autores não consultaram o Portal da CAPES ou mesmo o Google Acadêmico; e, como não podia faltar, textos enormes e com fonte pequena aplicados a Power Points, sendo lidos ponta a ponta.

Essas características, é preciso ressaltar, compõe a minoria dos trabalhos. Mas penso que não podem ser ignorados. Isso tudo pode ter ocorrido pelo processo de reformulação que o Grupo está passando. A coordenadora do GP, Ana Silva Médola (que aliás apresentou um mais que relevante panorama das produções do grupo nos últimos 10 anos), no fechamento do GP perguntou se seria interessante a presença de um comentarista, que teria 5 minutos para falar sobre cada trabalho. Achamos isso fundamental, do contrário corre-se o risco de o pesquisador atravessar o país para apresentar um trabalho e não receber comentário algum. Isso não pode acontecer, pois não há trabalho fraco ou potente, nem certo ou errado, ainda mais sob os olhos de um GP – todos os trabalhos apresentados estão em construção, esperando que sejam criticados, para em seguida serem re-escritos e melhorados. Há, portanto, trabalhos sendo apresentados que precisam e que anseiam por críticas.

E se é críticas que precisam ser ouvidas, gostaria de comentar algumas coisas:

  1. Cada vez mais estou me convenço que análises comparativas são muito pouco científicas, pois não tiram nem o pesquisador nem o objeto do seus eixos; é um método que dá um conforto extremo para ambos.
  2. Não é possível que pesquisadores formados ou formandos em Jornalismo ou qualquer outro curso de comunicação apresentem artigos mal redigidos. Não importa que a pesquisa esteja em construção; a gramática de um estudante deve estar plena antes mesmo que ele comece a se formar como pesquisador.
  3. Precisamos pesquisar na web se já não fizeram um artigo parecido com o nosso. O portal da CAPES e o Google Academics podem ser mais que suficientes para tal propósito.
  4. Ficar de costas para o público enquanto lê o PPT que todos também podem ler é confuso e aborrece qualquer um.

PS: vale salientar que a reclamação da qualidade dos artigos se estendeu por outros GPs, inclusive o de semiótica, tido por muitos como o mais rigoroso e “malvado” de todos. Então esse não é um problema específico do GP de TV e Vídeo, o que talvez configure-se como um #epicfail.

Em breve vou escrever também sobre os artigos sobre videoclipes em especial.

A semiótica como teor conteudístico

Faz menos de um mês (em agosto de 2010) que o vídeo Interior Semiotics virou tendência e se viralizou pelo mundo. Este vídeo, de acordo com a descrição do site Know Your Meme, apresenta Natacha Stolz ao mundo: “uma jovem artista universitária realizando uma performance artística bizarra, que inclui a abertura de uma lata de SpaghettiO’s [espaguete pronto pra comer, com molho de tomate], esfregar o conteúdo da lada em sua camiseta, se masturbar e então urinar na lata”.

Eis o vídeo:

O que nossa heroína balbucia: “Everything is shit. We apply meaning, value, and worth to the shit surrounding us. We live by this meaning and by our words. We live by worth and apply value, but everything is shit.”

Reparem que sua poesia propõe que não há valor algum na merda. Tampouco o signo merda, que ela utiliza em seu texto. Temos aí um típico caso de contradição artística, o que muitos justificam como “licença poética”. Numa perspectiva kantiana, a artista pretende mostrar que há uma barreira entre o real (que ela chama merda), e nossa percepção do real. Como se vivêssemos à parte do mundo que pertencemos, como não conseguíssimos chegar à coisa de fato. Tudo em inglês é everything, todas as coisas. Ora, se ela é capaz de perceber as coisas e denominá-las de merda, não está aplicando sentidos e valores às coisas? Assim, estaria afastando-se da perspectiva heideggeriana, fenomenológica, das coisas, elas mesmas?

Segundo ponto: o título Interior Semiotics pouco reverbera na obra. Embora a utilização de pelo menos três fluidos corporais – os quais bem ou mal são iconicamente significados quando de sua utilização na performance –, Stolz parece fazer o tempo todo uma Semiótica para o outro. Quero dizer com isso que, dadaísticamente, a artista provoca um choque que é quase tátil no seu público. Nesse sentido ela consegue ser bem contemporânea: “eu é um outro”, comentaria Deleuze.

Terceiro ponto: mais uma pessoa que vira piada mundial por se levar a sério demais. Assim como Tay Zonday (ver Chocolate Rain), Star Wars Kid e David (depois do dentista), Stolz adquire um tom humorístico acidentalmente. Esse tom é característico de muitos memes na internet.

Quarto ponto: virais de internet são a MTV desta década. Teixeira Coelho dizia que a Music Television vivia num universo à parte: enquanto os E.U.A. bombardeavam o oriente médio em 1991 na CNN, ao trocar de canal você poderia relaxar ouvindo Express Yourself. Repare que para boa parte dos virais de internet os tradicionais valores éticos e estéticos vão pra banha! O negócio é bagaceirice e non-sense!

Eu ainda me lembro quando descobri MC Jeremias e apresentei este protótipo de post-videoclip para alguns amigos. Muitos ficaram chocados com a abordagem de Givanildo Silveira e equipe, tratando Jeremias como se fosse um origami: dobrando-o à vontade.

Mas é isso que fazemos sempre que assistimos à estes vídeos: nos aproveitamos da ignorância alheia para nos divertir. Hoje, vídeos ainda mais ridicularizadores do que MC Jeremias, como o da Bixa Muda, não chocam mais tanto. À uma fase de choque sempre procede uma neutralização.

Apesar dos pesares, é algo bem mais sutil do que os espanhois faziam para passar o tempo nas américas ou o que os nazistas faziam para fazer avançar a ciência. Este só pode ser um sinal de um avanço no processo civilizatório – a compensação da repressão de nossos desejos mais selvagens é apaziguada ao gargalhar às custas de um travesti que diz, contente: i’m burning!

No fim, assim como Stolz, não falei nada que tinha a ver com o título do post. E acho que a proposta rende. Me parece que a ressignificação é a palavra de ordem desses vídeos de internet, seja nos remixes, seja na nossa interpretação. A performance de Stolzs, para muitos dos que viralizaram o vídeo, importa menos do que falar mal dos hipsters que a assitem, assim como para falar mal do governo, que dá bolsa para “essa gente” ao invés de inverstir em saneamento básico.

O que acontece nesses vídeos é o surgimento de uma semiótica por extensão, extrínseca ao vídeo. Vou pensar melhor nisso.

PS aos desprovidos de senso de humor: estava sendo sarcástico desde o início.