Virose Gaga

Hoje de manhã passou na MTV o clipe Telephone, da Lady Gaga em parceria com Beyoncè. Eu me lembrei que fizeram um estardalhaço com o lançamento desse vídeo. Lembrei também de várias matérias jornalísticas sobre Gaga que eu li, ouvi, e assisti por aí. Pra quem não gosta, é mais difícil driblar Gaga do que novela das oito. Como um vírus, ela infectou a todos nós.

Os adoradores de pop music, em entrevistas na MTV falam que ela era o que faltava para o mundo Pop, que carecia de uma imagem que substituísse o buraco deixado por Madonna. Particularmente, eu não vejo nenhuma diferença entre as duas. Gaga só ocupou um mesmo lugar, aproveitando que o nosso zeitgeist é um retorno aos anos 80: falta de perspectiva a longo prazo, mas muito vigor para se acabar na noite como se não houvesse amanhã. Uma espécie de cultura da cocaína. Dizer que não aconteceu nada entre Madonna e ela também é de uma imbecilidade tamanha.

Alguém falou por aí que Gaga estava reinventando o jeito de fazer vídeo clipe. Eu digo NOT. Coloquem Telephone e Thriller do Michael Jackson lado a lado, e vocês verão duzentos pontos em comum: referências à filmes, pausas na canção para desenvolver uma narrativa, coreografias esquizofrênicas, participações especiais, longa duração e créditos subindo no final. A verdadeira reinvenção do vídeo clipe acontece na web, por artistas amadores, e aparentemente não pode acontecer através de bandas e músicos que ensejam uma gravadora. Eu já venho falando disso em vários posts por aqui. Mas talvez mais pra frente eu explique melhor essa situação.

Lady Gaga é um movimento pela imagem, não pela música. Não há nenhuma revolução do vídeo clipe por ela, quiçá musical! Se não soubesse que Poker Face fosse dela, poderia jurar que Coronna havia voltado.

Querem fazer dela algo maior do que é, e daí dizem “que não tem como explicar o que ela faz conosco”. Mas nossa época não é uma de revoluções mundiais. Ao contrário do que se fazia em 60 com as músicas de protesto, só ouvimos as coisas porque achamos legais. A estabilidade política e emocional de nosso tempo permite curtimos a estética das coisas, sem se preocupar mais com a finalidade delas. Ninguém compra um Porsche para mudar o mundo. Ninguém que ouve Gaga deve querer a mesma coisa. Só se o envolvimento é de entrega, mas quem pensa assim está fora do nosso tempo: não há uma causa a se aderir.

Se quiserem falar coisas bonitas de Gaga, podem dizer que nem um entusiasta abestado de Igor Stravinski: ela causou uma revolução completa na música e no comportamento das pessoas. O entusiasta talvez não tenha se dado conta, mas uma revolução completa são 360 graus, volta exatamente para o mesmo lugar. E o “mesmo lugar” de onde Gaga surge é o da retórica redundante de que precisamos de um ídolo máximo no mundo da música. Podemos só curtir o som numa boa?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s