Texturas em mutação (Intercom 2010 – UCS)

Quem estiver pela UCS durante a Intercom vai poder participar do Grupo de Pesquisa Televisão e Vídeo, no qual vou apresentar o artigo Texturas em Mutação: a baixa definição dos vídeos para web.

Eu escrevi este texto a partir deste vídeo da banda Chairlift, dirigido por Ray Tintori:

Repararam que eles usaram a falha de codec que ocorre em vídeos compactados em DivX como opção estética?

Minha apresentação será dia 4 de setembro, segunda-feira, das 9h às 12h, no bloco H, sala 105, na UCS, em Caxias do Sul.

Na mesma mesa, também haverá apresentação do artigo Figuras de tempo seta em panoramas televisivos, que escrevi em co-autoria com a Dra. Suzana Kilpp.

Vale a pena conferir a lista dos trabalhos do GP, pois tem outros 4 artigos sobre vídeo clipe.

O resumo do trabalho:

A necessidade de reduzir a definição dos vídeos para internet (para que carreguem mais rápido) cria deformações visuais. Essa situação, que por anos incomodou muitos videastas, hoje provoca artistas a se apropriarem da baixa definição como opção estética. O presente artigo se propõe a apresentar um breve panorama de como se chegou a esta situação, através de um ponto de vista filosófico, técnico e estético.

Palavras-chave: audiovisual; música; estética; tempo; vídeo clipe.

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Virose Gaga

Hoje de manhã passou na MTV o clipe Telephone, da Lady Gaga em parceria com Beyoncè. Eu me lembrei que fizeram um estardalhaço com o lançamento desse vídeo. Lembrei também de várias matérias jornalísticas sobre Gaga que eu li, ouvi, e assisti por aí. Pra quem não gosta, é mais difícil driblar Gaga do que novela das oito. Como um vírus, ela infectou a todos nós.

Os adoradores de pop music, em entrevistas na MTV falam que ela era o que faltava para o mundo Pop, que carecia de uma imagem que substituísse o buraco deixado por Madonna. Particularmente, eu não vejo nenhuma diferença entre as duas. Gaga só ocupou um mesmo lugar, aproveitando que o nosso zeitgeist é um retorno aos anos 80: falta de perspectiva a longo prazo, mas muito vigor para se acabar na noite como se não houvesse amanhã. Uma espécie de cultura da cocaína. Dizer que não aconteceu nada entre Madonna e ela também é de uma imbecilidade tamanha.

Alguém falou por aí que Gaga estava reinventando o jeito de fazer vídeo clipe. Eu digo NOT. Coloquem Telephone e Thriller do Michael Jackson lado a lado, e vocês verão duzentos pontos em comum: referências à filmes, pausas na canção para desenvolver uma narrativa, coreografias esquizofrênicas, participações especiais, longa duração e créditos subindo no final. A verdadeira reinvenção do vídeo clipe acontece na web, por artistas amadores, e aparentemente não pode acontecer através de bandas e músicos que ensejam uma gravadora. Eu já venho falando disso em vários posts por aqui. Mas talvez mais pra frente eu explique melhor essa situação.

Lady Gaga é um movimento pela imagem, não pela música. Não há nenhuma revolução do vídeo clipe por ela, quiçá musical! Se não soubesse que Poker Face fosse dela, poderia jurar que Coronna havia voltado.

Querem fazer dela algo maior do que é, e daí dizem “que não tem como explicar o que ela faz conosco”. Mas nossa época não é uma de revoluções mundiais. Ao contrário do que se fazia em 60 com as músicas de protesto, só ouvimos as coisas porque achamos legais. A estabilidade política e emocional de nosso tempo permite curtimos a estética das coisas, sem se preocupar mais com a finalidade delas. Ninguém compra um Porsche para mudar o mundo. Ninguém que ouve Gaga deve querer a mesma coisa. Só se o envolvimento é de entrega, mas quem pensa assim está fora do nosso tempo: não há uma causa a se aderir.

Se quiserem falar coisas bonitas de Gaga, podem dizer que nem um entusiasta abestado de Igor Stravinski: ela causou uma revolução completa na música e no comportamento das pessoas. O entusiasta talvez não tenha se dado conta, mas uma revolução completa são 360 graus, volta exatamente para o mesmo lugar. E o “mesmo lugar” de onde Gaga surge é o da retórica redundante de que precisamos de um ídolo máximo no mundo da música. Podemos só curtir o som numa boa?

Fritando o sistema tonal

Foi por volta da década de 1980 em que alguns guitarristas aparentemente (ou infelizmente) influenciados por Paganini desenvolveram técnicas de tocar guitarra mais rápido. São aquelas famosas técnicas que fazem as revistas de guitarra serem vendidas feito água: hammer on/of, sweep picking, e várias outras que até hoje não possuem tradução para o português. É TUDO CULPA DO VAN HALEN!

Em inglês, o termo para esse estudo de tocar rápido (pra mim um estudo mais anatômico do que musical) se chama Shred. Aqui no Brasil, os malandros chamam de fritar, os veneradores de virtuose, e eu chamo de punheteação. Agora que já explicitei minha parcialidade sobre o assunto, vamos avançar.

O YouTube é um espaço legal para fazer exatamente o oposto que eu sempre quis: separar esses solos gigantescos da música e publicá-los em vídeo. A compensação é que algumas pessoas resolveram fazer esse momento narcisista ficar ao menos engraçado. Apresento-vos mestre da anti-virtuose, StSanders:

StSanders criou outros vídeos desse tipo, uma série de overdubs em cima de guitarristas famosos. O processo é simples, só requer equipamentos básicos (guitarra, microfone e um computador) e muita paciência. O destaque para mim neste dub do Santana é que em boa parte do tempo os instrumentos só soam quando entram em plano. Afinal, está é a lógica do vídeo, é tocar algo muito tosco imitando o que os músicos fazem em vídeo.

Abaixo está meu shred preferido, talvez por não ser de nenhum virtuose metaleiro.

Essa sacada de StSanders extrapolou o âmbito do shred e já lida com outras temáticas. Repare como ele faz o Metallica se transformar em uma bandinha de garagem:

Atualmente ele avacalha um clipe clássico tocando outra música no lugar da original. Agora já não tem mais nada de shred:

Estou escrevendo um artigo sobre esses vídeos, focando na ideia de que eles irritam a Música, e de alguma forma fazem aos poucos inchar sua memória, se neutralizando como algo propriamente musical. Quando falo de Música, estou falando em sua totalidade, tudo aquilo que pode ser entendido por música, todas as suas possíveis definições. Eu trato disso mais adiante. Divirtam-se com as fritadas por enquanto.