Sobre porque sempre perdemos para a Música

Recentemente o MC Lucas Diniz (Musical Amizade) me mostrou um blog que ensinava a fazer um Rap apenas tocando em simultâneo dois vídeos do YouTube. Logo depois o Bluesman Vinícius Ghise postou uma outra versão: ao invés de abrir um vídeo em cada aba, ele os embedou no post, de modo a ficarem lado a lado.

Quando me deparei com a experiência, tive que trocar de calças de tanto rir. E como sou músico e pesquisador, não podia deixar de dar a minha sugestão de apreciação.

1) Dê play e pause rapidamente nos vídeos abaixo. Espere ambos carregarem completamente.
2) Dê play no primeiro vídeo.
3) Espere onze segundos e toque o vídeo do gordinho.

Reparem que esta concepção permite alguns detalhes importantes para o sistema fechado que  é o Rap. Permite que aconteça uma introdução instrumental (você pode por conta própria gritar uns YO! AHN! para intensificar a experiência), antes do gordinho começar seu papo reto. Também aumenta a incidência de pausas de bateria com palavrões, outro processo típico de Rap tipo Gangsta.

Mas o efeito é sem dúvida o mais forte, e ele transcende o Rap. Faz parte no mínimo de toda música popular, seja Jazz, Pop, Rock, ou outro estilo que apareça no equalizador de seu Mini System. Esse efeito não fui eu que inventei, a Música é que pediu para que eu fizesse. Música com maiúscula porque não falo da música que este Instant Rap faz emergir, mas a Música como virtualidade, quase que uma espécie de entidade sobrenatural que psicografa através de nós, músicos.

Na maior parte do tempo que pensamos ser criativos, quem realmente está pensando é a Música. Isso ocorre toda a vez que nos sentimos obrigados a fazer uma introdução para a música, de que ela tenha um refrão ou coisa do tipo. É um jogo: de um lado, a Música como memória onipresente apresenta seus recursos até então disponíveis (ritornelo, semifusa, escala pentatônica, solo de pandeiro, e o que mais ela até hoje diz ser possível ser reconhecido como musical). Do outro lado, estamos nós, compositores. Uns estudam o jogo da Música e a acompanham. Outros a enfrentam com unhas e dentes, caso de John Cage e sua brilhante 4’33’‘, que é uma música constituída somente da potência da Música; ou aqueles malucos que fazem música concreta; ou o Funk Carioca, abolindo as leis de afinação e o sistema tonal; os exemplos são intermináveis, mas todos periféricos. Quando eles são aceitos (quando por fim nos entregamos e dizemos “OK, essa bobagem é música!”), a Música se expande e passa a nos dominar ainda mais.

Quem faz música é a Música. Nós só tentamos botar contra.

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Inspirado nas sacadas de Bornheim, Flusser, Bergson, Deleuze, John Cage, Alexandre Rocha da Silva e, possivelmente, Luhmann.

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