Audiovisualidades de videoclipes produzidos para web (1/5)

Do meu trabalho de conclusão (2007, orientado por Suzana Kilpp), apenas o trecho da análise não foi publicada. Como ele trata de várias coisas pulverizadas, não dava consistência para um artigo acadêmico. Resolvi então parti-lo em cinco posts, a serem publicados semanalmente.

DA AUTONOMIZAÇÃO

A canção popular atualmente depende muito das mídias para ser divulgada e consumida. Os avanços tecnológicos no começo do século XX permitiram uma distribuição cada vez maior de registros fonográficos – os discos – o que fez com que se criasse em torno da música uma série de segmentos especializados no mercado para a divulgação da mesma, entre os quais, o de videoclipes.

Assim, na esteira da indústria fonográfica define-se um padrão industrial de produção que não é apenas musical. Descobre-se uma banda, ela é produzida visualmente, lança-se um álbum com várias músicas e divulga-se a banda (ou melhor, um produto vendável com o nome dela, como um álbum) através de vários meios como o videoclipe, com o intuito de impulsionar as vendas.

O sucesso desse esquema foi tamanho que poderíamos pensar numa produção em escala industrial de videoclipes, especialmente se for considerada a regularidade com que as gravadoras os lançam – sempre após o lançamento de um álbum de músicas inéditas, do qual costumam decorrer entre dois e cinco videoclipes, processo que fecha uma espécie de ciclo regular.

Atualmente esse esquema está entrando em crise, devido ao crescimento do espaço para vídeos na internet. Com a conexão de banda larga, abriu-se espaço para softwares (pagos e gratuitos) de downloads de arquivos, e sites onde se pode pesquisar e assistir a vídeos. Há softwares como o eMule, que realiza conexões diretas de usuário para usuário (sem o intermédio de um servidor com banco de dados), permitindo a troca e obtenção de arquivos ilegalmente (pois, dessa maneira, o usuário não paga para baixar um arquivo). Os mais populares são os mais rápidos de serem baixados, por serem compartilhados por vários usuários. Quanto aos sites de vídeo, o mais popular é o YouTube, que possui uma estrutura que privilegia vídeos amadores e desconhecidos a se tornarem as chamadas “febres da internet”.

O mais notável é o fato de que algumas bandas – especialmente as independentes de gravadoras – vêm publicando seus vídeos em sites como o YouTube e ficando populares a partir disso. Prova disso é o videoclipe caseiro Here It Goes Again da banda OK Go. Parece que os processos estão se invertendo. Cada vez mais as bandas estão se desprendendo das gravadoras e criando por conta própria até mesmo sua própria imagem. Está ocorrendo uma revolução na forma de produzir e de se assistir videoclipe. A produção independente está cada vez mais à frente da indústria.

Enquanto a indústria fonográfica produz videoclipes para a internet da mesma forma que para a televisão, a rede também permite uma participação maior e compartilhada entre os usuários, de modo que sites com bancos de vídeos (como o YouTube, por exemplo) liberam o servidor para qualquer usuário publicar seus trabalhos. Isso permite uma nova experimentação audiovisual, de ordem técnica, estética e cultural, inclusive de vídeos musicais. Mas o mais surpreendente é que em relação à gramática do videoclipe os vídeos mais interessantes são justamente aqueles que vêm sendo produzidos (e com extrema competência) por amadores ou artistas independentes, sem contrato com gravadora ou produtora. Nesses casos, o mercado fonográfico fica à margem da produção, apenas sustentando os sites que divulgam os vídeos ou promovendo concursos culturais.

Mais curioso ainda é que a estrutura que a internet possui para abrigar vídeos tem revelado videoclipes que não foram concebidos a partir de uma canção. Do Brasil, há o videoclipe MC Jeremias. Outro caso ainda é o videoclipe Amateur, do sueco Lasse Gjertsen. Ambos os vídeos foram analisados por mim no TCC, e serão analisados, respectivamente, nas partes 2 e 3.

Casos como estes comprovam que os modos diversos de recepção e interatividade da internet vêm provocando uma reviravolta no que se entendia por videoclipe até o começo dos anos 2000. O que está acontecendo é que os clipes, que antes eram planejados para serem uma espécie de anúncio publicitário, com o intuito de divulgar o álbum de um artista, agora estão se autonomizando na rede mundial de computadores, tornando-se um fim em si mesmos. Além disso, ainda há o fato de estarem se criando éticas e estéticas inovadoras, e que não funcionariam na TV. Essa transição para a web cristaliza a fase televisiva do videoclipe ao mesmo tempo em que dá margem a novas possibilidades.

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