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Grupo Aberto de Pesquisa em Vídeos Musicais

Estar na Intercom me fez lembrar do tempo do colégio.  Pouca coisa me interessava, chegava cansado pra assistir, mas fiz belas amizades. Meu interesse de pesquisa está em música e audiovisual. Ou, só para ficar mais claro, em videoclipes. 

Lá em Caxias acabei conhecendo outros pesquisadores de videoclipe. A primeira foi a Ariane Holzbach, com quem tive mais diálogo. No congresso, ela apresentou um artigo sobre a história social de surgimento do videoclipe, motivado pelo fato de que nós, pesquisadores , nos concentramos em reclamar de uma bibliografia magra sobre o assunto, e partimos para a descrição do seu surgimento. E nessas passamos pela história de sempre: nasce com os Beatles, estetiza-se com o Bohemian Rapsody do Queen, massifica-se e narrativiza-se com Thriller do Michael Jackson, e por aí vai. 

No entanto, há uma produção muito maior do que se pensa sobre videoclipes, só que ela é calcada na repetição dessa história. Como se todos nós que o estudamos nos setissemos na obrigação de explicar e contar ao leitor leigo essa história. É assim que Laura Correa se sentiu, quando me contava sobre a produção de seu artigo. Laura compôs o artigo quando estudava na UFMT, e à época, não contava com outras pessoas por perto estudando o mesmo objeto, ao contrário do cenário em que a Ariane e o Thiago Soares (outro pesquisador de videoclipe que encontrei na Intercom) se encontram: em universidades onde há muito mais alunos interessados no objeto. 

Talvez essa tenha sido o motivo para Laura contar uma breve história do videoclipe antes que pudesse falar do que o título do artigo propõe:  As transformações das mídias massiva, segmentada e em rede evidenciadas pelo videoclipe. Eu senti a mesma obrigação no meu trabalho de conclusão: o primeiro capítulo trata também da história, faz os mesmo caminho, mas para tratar de outros problemas.

A essa altura, nem preciso dizer que o Tiago e a Ariane também um dia correram esse percurso! E aí comecei a me perguntar: porque é assim?

Parece até trabalhos de filosofia, em que o cara tem que ficar páginas a fio retomando tudo o que já foi dito para poder dizer o que realmente pensa. Discutindo com a Ariane, começamos a pensar se já era ou não hora de pular essa história e ir pro que interessa, citando algum artigo que tenha contado essa história. Por outro lado, comecei também a me dar conta de que cada um de nós conta essa história um pouquinho diferente. Num trabalho que escrevi com Suzana Kilpp, Videoclipe: da canção popular à imagem-música, fazemos este caminho, mas para mostrar como o objeto tendeu para fazer articulações cada vez mais intensas entre o visual e o sonoro. Não duvido que uma reunião de artigos que contem esta mesma história em um livro não demonstraria perspectivas bem diferentes.

Pensando nisso e em muitos outros problemas entre os pesquisadores de audiovisual e música, criei o GRUPO ABERTO DE PESQUISAS DE VÍDEOS MUSICAIS, ou pela sigla horrorosa, GAP-VM. Bem, este é uma lista de discussão livre para que a galera se apresenta e conheça as pesquisas um dos outros. Assim, ao invés de nós, estudantes de videoclipe, pesquisarmos sozinhos cada um no seu estado, possamos discutir juntos nossa produção e garantir que cada um tenha uma perspectiva bastante autêntica.

Quem for pesquisador ou conhece alguém que se interessa, vai fazer monografia, trabalho de conclusão, o que for, basta se convidar por comentário pelo blog aqui. Será muito bem vindo.

AMATEUR E A IMAGEM-MÚSICA

Num outro movimento de produção de videoclipe para web, Lasse Gjersten, um sueco de 22 anos, concebeu um vídeo denominado Amateur. Sua concepção é simples, entretanto a produção muito complexa. Gjersten se registrou em vídeo sentado diante de bateria e piano, tocando apenas uma vez e isoladamente cada peça ou nota de cada instrumento.

Num editor eletrônico de vídeo, ele lançou na linha do tempo as batidas da bateria de modo a compor ritmos, e depois repetiu o procedimento com o piano, dividindo a tela em duas molduras e mostrando ambos os instrumentos sendo tocados por ele, em simultâneo.

É mais ou menos o mesmo processo de The Hardest Button To Button, videoclipe produzido por Michel Gondry em 2003, produzido para música da dupla White Stripes – este, produzido de acordo com os padrões da indústria fonográfica. Simulando uma espécie de stop motion com objetos e pessoas de verdade, Gondry multiplica a imagem dos instrumentos musicais na tela a cada vez que são tocados, como se vê a seguir:

A música começa com uma batida regular de bumbo, sendo que para cada vez que a baterista Meg White, em playback de imagem, pisa no bumbo, ocorre uma troca de plano. Ela reaparece no plano seguinte sentada agora à frente de um segundo bumbo, sendo que o primeiro está ao lado, exatamente onde fora utilizado; e assim por diante. Cada plano do clipe dura exatamente o intervalo entre duas batidas da bateria (ocorrem algumas montagens diferenciadas ao longo do vídeo, mas esta é a base).

A trilha imagética então é extremamente cortada e montada com aparentes falsos raccords. Pra quem não sabe, falsos raccords são cortes bruscos nas trocas de planos, obtendo-se uma supressão de tempo-espaço. São seqüências que não se complementam da maneira tradicional do cinema. Por exemplo: se, num plano qualquer, tal personagem está de pé, no plano seguinte ele pode, abruptamente, aparecer sentado. Ainda que isto cause estranheza, “[...] não impede a compreensão correta da história contada, e só é ‘falso’ na visão de uma ‘veracidade’ convencional, a de certa continuidade do visível.” (Aumont, 2003:116). Mas no vídeo do White Sripes são aparentes porque a montagem eletrônica, que permite cortes ultra-rápidos, é utilizada neste vídeo, o que não caracteriza exatamente um falso raccord. Poderíamos pensá-las antes como imagens do tempo, conforme Deleuze (1990), pois as imagens neste vídeo não são de caráter narrativo, mas situações óticas e sonoras puras, o que também ocorre, com maior ou menor intensidade, em todos os outros vídeos analisados.

Os vídeos para internet se assemelham esteticamente ao clipe do White Stripes pela aparência replicante. Mas, na verdade, há uma diferença: não há playback, e todos os sons são provenientes da mesma fita onde foram gravadas as imagens.

Em Amateur, mesmo que o vídeo deixe claro que a música foi pensada antes de sua concepção, ela só pôde ser ouvida após sua construção, realizada pela edição.  Pode-se perceber isto quando Gjersten toca algumas notas combinadas (acordes) no piano. Ele provavelmente compôs uma partitura para poder lançar posteriormente notas e acordes tocados em ordem correta no vídeo, senão teria que tocar o piano de todas as maneiras possíveis (que são infinitas) para poder compor livremente no software de edição – algo impossível de ser realizado. O instrumento musical aqui não é a bateria ou o piano, mas o software de edição de vídeo. As notas musicais são as tomadas audiovisuais (ou planos) de cada nota produzida pelo piano ou bateria, que no software aparecem como possibilidades de criação musical. Na verdade, seria melhor pensá-las como samplers, que são muito utilizados na música eletrônica. E o produto final, o videoclipe, é como uma caixinha de música tecnológica, uma espécie de partitura eletrônica que reproduz sons de acordo com a maneira como foram programados.

Este é um exemplo claro de imagem-música, um conceito de Silva (2005:2): “Imagem-música é um texto sincrético, isto quer dizer, um texto formado por diferentes linguagens em cujos planos de expressão importam mais as articulações entre sons (musicais) e imagens, do que as gramáticas específicas de cada linguagem considerada isoladamente.”. Imagem e música estão tão articuladas em Amateur, que, escutar a música sem ver a imagem não causa nenhum impacto no ouvinte, que vai pensar que se trata de uma performance tradicional com um baterista e um tecladista tocando um ao lado do outro seus respectivos instrumentos. Da mesma forma, ver as imagens sem áudio simplesmente parecerá que o diretor do vídeo “amontoou” uma série de imagens desconexas.

Estamos diante de uma nova fase do videoclipe musical: sua autonomização. Livre do sistema mercadológico, ele não precisa mais necessariamente divulgar um artista, e a criação da música pode ocorrer tanto antes quanto durante ou depois da imagem. Ou ainda, pode ser criada em paralelo, de forma que ambos tornem-se cada vez mais dependentes. Esse estágio do videoclipe já vinha sendo ensaiado tanto por alguns videoclipes como The Hardest Button to Button quanto pela MTV, como propõe Coelho Netto (1995:163):

Deixando de lado a tentação de tentar entender o que Lênin quis dizer com a frase “O cinema é a arte do século XX”, a resposta da MTV seria: este é o século (o final de século) da imagem e do som, ao mesmo tempo. O século (ou o que resta dele) do audiovisual, termo de forte sabor burocrático que, no entanto, expressa bem o que recobre.

Referências Bibliográficas

AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. Dicionário teórico e crítico de cinema. Campinas: Papirus, 2003.

COELHO NETTO, José Teixeira. Moderno pós moderno: Modos & Versões. São Paulo: Iluminuras, 1995.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

SILVA, Alexandre Rocha da. Devires de Imagem-Música. In: INTERCOM – XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2005, Rio de Janeiro. INTERCOM, 2005. Disponível em: <http://reposcom.portcom.intercom.org.br/dspace/bitstream/1904/16872/1/R0921-1.pdf>. Acesso em: 19 out. 2007.

Aprendizes do Fantasia

Walt Disney picotou as músicas sem dó, nem ré, nem piedade

Walt Disney picotou as músicas sem dó, nem ré, nem piedade

Minha primeira aventura acadêmica levou 16 meses para ficar pronta. Fruto de um curso de extensão de prática em pesquisa, escrevi um artigo apontando o filme Fantasia da Disney, de 1940, como uma das principais potências do que hoje compreendemos como vídeo clipe.

Leia o artigo na íntegra.

Escrevi o artigo em 2006, em parceria com o Prof. Alexandre Rocha da Silva, hoje meu orientador de mestrado. Usando como método de análise a Tradução Intersemiótica (de Júlio Plaza), vamos encontrando semelhanças de acontecimentos no filme com acontecimentos em videoclipes.

Um dos achados interessantes é o bate-boca que o filme gerou entre o compositor Igor Stravinsky e Walt Disney. Acontece que o desenhista não teve pudor algum ao editar a música A sagração da primavera do compositor, que retrucou dizendo  que “não ia comentar uma imbecilidade irretorquível”.

Stravinski na época estava cético de que a música era incapaz de exprimir qualquer sentimento. Ver sua peça contando a história da vida na Terra, desde a primeira ameba até a morte dos dinossauros, deve ter sido como tomar um puxão de cueca até ela ser presa na testa.

Mas a riqueza das articulações entre música e desenho animado de Walt Disney falou mais alto e hoje é encarada com naturalidade a interferência nas peças musicais originais para que se possa dar um sentido ao audiovisual. Um belo exemplo disso é o clipe Come into my world, dirigido por Michel Gondry para a insossa música de Kylie Minogue. Ele interferiu na estrutura da música, mas eu vou me poupar detalhes que podem ser melhor entendidos lendo outro artigo meu que trata exatamente deste vídeo.

Importa dizer que meu filho vai se chamar Valdisnei. Eis o clipe da Kylie:

Frame de "Let Forever Be", música de Chemical Brothers e direção de Michel Gondry (1999)

Quando eu fiz meu trabalho de conclusão em 2007 (Unisinos, orientado pela Suzana Kilpp), analisei alguns videoclipes do diretor Michel Gondry, evidenciando seu meticuloso trabalho de articulação das trilhas visuais e sonoras. Neste artigo eu e Suzana conseguimos fazer uma aproximação dos estudos sobre música com os de audiovisual, trazendo ainda a filosofia de Bergson para dar conta das sincronias dos elementos audiovisuais. Esse artigo foi publicado em março de 2010, mas a revista saiu como de novembro de 2009.

Pra quem estuda novos métodos de montagem em audiovisual (Cinema, TV, web…), acho que vale muito a pena, pois nele revela-se parte dos truques desse grande diretor de cinema e vídeo que é o Michel Gondry.


Novos construtos de tempos audiovisuais simultâneos no videoclipe

CMC (Comunicação, Mídia e Consumo – ESPM – SP)
Vol. 6, No 17 (2009): Comunicação e representações do feminino

O artigo indica algumas tendências de atualização da imagem-música em videoclipes. Elas foram observadas na articulação das trilhas visuais e sonoras de três vídeos, todos dirigidos por Michel Gondry e produzidos entre os anos de 1996 e 1999, nos quais se encontra um uso muito criativo de tempos audiovisuais simultâneos. Esses são analisados na perspectiva teórica de autores que trabalham com o conceito de tempo relacionado à percepção e à memória. O artigo também toma por referência autores que pensam o audiovisual e a música em sua perspectiva técnica, estética e filosófica.

Palavras-chave: Videoclipe. Imagem-música. Michel Gondry. Tempos audiovisuais simultâneos.

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