Categoria: A produção musical nos canais do YouTube


Nos vídeos que estamos aqui analisando, muitas estratégias permanecem as mesmas: tanto Julia Nunes quanto a Pomplamoose fazem várias versões de músicas famosas. E se quando vamos a um show de uma banda desconhecida, as versões ajudam a entender as influências e propostas estéticas da banda, no YouTube o que acontece é que descobrimos a banda ao buscar pelo vídeo original, e a versão deles acaba aparecendo. Muitos conheceram Julia Nunes porque procuravam pelos Beach Boys. Daí para assistir as músicas próprias dela nos vídeos relacionados é um pulo. Os músicos também têm a noção de que os canais servem mais para quem realmente se interessou no seu trabalho. A atenção é chamada primeiro via palavras-chave. Depois, o músico tenta convencer, no final do vídeo, ao falar com o espectador, que assine seu canal e veja outros vídeos. O que Boyd fala sobre a busca na web também se aplica neste caso:

No mundo digital, costumamos usar a busca para procurar estranhos com concepções similares do mundo. Nós decoramos nossos blogs e vagamos por outros blogs como flaneurs digitais. A blogosfera é a esfera pública imaginada, o lugar habitado por todos os corpos públicos digitais (2006, p. 19, tradução minha).

Assim como é comum em blogs os autores adotarem uma postura firme e manter um estilo de escrita, em boa parte dos trabalhos dos músicos citados neste artigo, podemos encontrar na totalidade de seus vídeos estéticas e técnicas que se repetem. No Pomplamoose, é o VideoSong; no Songs From a Hat, é o desafio de fazer uma música em cima de uma ideia absurda; nos vídeos da Julia Nunes, um primeiro plano tomado da web cam de seu notebook em que ela aparece cantando e tocando seu ukulele. Todos eles repetem a ideia desenvolvida por Lasse Gjerten em Amateur, de montar as canções no software de edição de vídeo, sem fazer playback. Essas propostas se repetem incessantemente em cada vídeo, e por fim o que parece mudar efetivamente são apenas as canções. “O que o público aprecia nessa espécie de consumo não é, em última instância, o fator ‘originalidade’, mas sim, talvez, ‘a repetição e suas mínimas variações’” (ECO apud FELINTO, 2008, p. 39).

É comum na web a exploração intensa de memes (eventos que são rapidamente disseminados pela rede). Em 2007, um vídeo em que aparece o personagem Seu Madruga do seriado Chaves cantando, mas com o áudio da música Florentina do artista brasileiro Tiririca desencadeou não só milhões de exibições, mas estimulou que muitos outros usuários usassem as mesmas imagens para fazer Seu Madruga cantar dezenas de outras canções. E este é só um exemplo; o mesmo ocorreu e continua ocorrendo com vários outros memes. Mais recentemente, um videoclipe novo da banda Radiohead em que o vocalista Thom Yorke aparece dançando freneticamente foi utilizado da mesma forma que com o Seu Madruga, resultando em vídeos nos quais o músico aparece dançando ao som de Single Ladies, Dancing Queen e até o tema de carnaval da Globo.

Como podemos notar, estamos diante de um cenário que abre novos caminhos para a música se manifestar, sofrendo irritações principalmente dos modelos de blog e rede social. Caminhos abertos por artistas ingênuos, que talvez pouco tenham estudado música ou audiovisual, mas estão na ponta da vanguarda, invertendo os tradicionais valores culturais. São tendências nestes vídeos o amadorismo, a agilidade, a baixa definição, o representar a si mesmo ao invés de representar o mundo. Sem dúvida estas são características compartilhadas com vídeo blogs e blogs escritos.

Referências Bibliográficas

BOYD, Danah. A blogger’s blog: exploring the definition of a medium. IN: Reconstruction: studies in contemporary culture, v. 6, n. 4, pp. 1-19, 2006. Disponível em: <http://reconstruction.eserver.org/064/boyd.shtml>. Acesso em 11 abr. 2011.

FELINTO, Erick. Videotrash: o YouTube e a cultura do “spoof” na internet. Revista Galáxia, São Paulo, n. 16, p. 33-42, dez. 2008.

Tanto Abby Simmons como Pomplamoose registram seus vídeos em casa, na sala, na cozinha, no quarto, mostrando, após as canções, o “backstage” de seus vídeos: a vida cotidiana, o que dá uma característica intimista, um efeito reality show. Em paralelo, a ideia de que blogs são como diários íntimos é muito forte. Mesmo hoje, após o crescimento exponencial dos blogs jornalísticos, literários e outros, é comum a exposição íntima por muitos usuários. E nos vídeo blogs musicais não é diferente, como podemos ver. Mesmo os músicos que estariam preocupados mais em divulgar seu trabalho sucumbem à tentação de exibir um pouco de sua “vida real”.

Essa atitude de não sair do quarto faz lembrar Kilpp (2006, p. 10) quando fala da televisão. Para a autora, na maior parte do tempo, ao invés de a TV espelhar a sociedade, ela tem um espelho voltado para si, como acontece em programas como Video Show, TV Fama, Studio Pampa e Big Brother Brasil. A TV imagina a TV. É o que acontece também com os vídeo blogs e seus produtores: estão todos criando um universo à parte do mundo dito “real”, “offline”, como num sonho adolescente, fabricado por adultos que não querem envelhecer: “meu quarto, minhas regras”. Fugindo um pouco da música, não dá pra não mencionar os vloggers brasileiros de sucesso, como Ronald Rios e P. C. Siqueira: ambos num primeiro momento parecem falar com o internauta, mas ao ultrapassarmos a opacidade do teor conteudístico3, vemos que não passa de uma construção de imaginários. “É isso que, com a TV, estamos a perceber: que a nossa é uma época de espelhos virados” (KILPP, 2006, p. 10). Adicionemos aí os vídeo blogs.

Quando Julia Nunes (outro exemplo de sucesso, que faz seus vídeos usando o mínimo de software e apenas sua voz, um ukulele e alguns truques de montagem) faz vozes de fundo ao gravar uma versão de God Only Knows dos Beach Boys4, é interessante notar que na maior parte do tempo ela olha para a webcam (abaixo, à esquerda), mas às vezes desvia rapidamente o olhar para baixo (à direita).

 


 

Ela está olhando a sua própria imagem capturada, que aparece espelhada no monitor de seu notebook durante a gravação, cacoete que se repete durante a performance de muitos outros vloggers. Eis os espelhos virados da TV aparecendo em um novo formato. Se em reality shows como o Big Brother, em que as câmeras ficam escondidas por detrás de espelhos vazados, como os de inquérito policial, nos vídeo blogs eles são espelhos digitais, que permitem que o autor do vídeo seja diretor de si mesmo. Ele pode fazer tudo sozinho.

Isso exerce uma influência enorme nos modos de produção dos músicos. Repare que tanto Lasse Gjersten em Amateur, quanto nos VideoSongs da Pomplamoose, e nos vídeos de Julia Nunes, Tay Zonday e Abby Simmons, não estamos mais tratando de videoclipes no sentido tradicional do termo, porque as imagens que nos são mostradas foram tomadas exatamente no momento em que foram gravados os áudios. Não há playback. É um híbrido, uma performance “gravada ao vivo”. Todos eles não estão apenas se preocupando com a afinação, mas com o enquadramento também (o que deixa o vídeo ainda mais intimista).

Entendendo que os vloggers colocam “um espelho voltado para si diante da lente da câmera”, não é de se estranhar que, mesmo com todo o sucesso que os músicos de vídeo blogs conseguem, acabam estabelecendo parcerias justamente com outros vloggers, como se esse espelho fechasse as janelas para “o mundo lá fora”. A Pomplamoose praticamente atravessou os Estados Unidos de carro para encontrar Julia Nunes para gravarem canções juntos. É como aquela máxima “blogueiro cita blogueiro” (MALINI, 2008): eles não precisam da indústria fonográfica nem de outras mídias para se divulgar. Basta um linkar o outro. Isso demonstra a força do YouTube como rede social: pessoas com ideais comuns acabam se aproximando e se conhecendo, estabelecendo parcerias criativas.

Referências Bibliográficas

KILPP, Suzana. Panoramas especulares. In: UNIrevista, São Leopoldo, Vol. 1, n° 3, julho 2006.

MALINI, Fábio. Por uma Genealogia da Blogosfera: considerações históricas (1997 a 2001). In: XIII CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO NA REGIÃO SUDESTE, 2008, São Paulo, Anais, 2008, São Paulo: 2008.

Quando se trata de blogs, uma das definições mais aceitas entre pesquisadores é a da organização cronológica: “as últimas atualizações aparecerem no início do site e as mais antigas abaixo, e cada bloco de texto é obstinadamente encabeçado pela data (e horário) da publicação” (SIBILIA, 2005, p. 48). Nos canais do YouTube, a ordem cronológica está lá no registro de cada vídeo, mas não é relevante para os músicos. O vídeo atual é destaque, mas os antecedentes não aparecem em ordem cronológica na barra direita. E mesmo que estivessem, pelo menos para boa parte dos músicos, não faria muita diferença – afinal, as canções devem ser atemporais – o usuário navega pelos vídeos dos canais como navega por um CD, de faixa em faixa.

Mas há também os músicos que tentam evidenciar uma cronologia em seu trabalho, como exemplo do canal Songs from a hat, de Abby Simons, cujo projeto, finalizado, utilizava um método de criação de músicas desafiando seus assinantes: em vídeos musicais de periodicidade semanal, sugere ao espectador inserir um possível título de música nos comentários do vídeo. Na semana seguinte, ela imprime os títulos sugeridos em tiras de papel, as coloca em um chapéu, e sorteia uma, que será tema e título de uma música que ela deve compor e publicar no YouTube em uma semana. O projeto terminou no 35º episódio. Sabendo que o YouTube não indica a data dos vídeos, especialmente na busca, Abby os numerou em seus títulos.

Embora os músicos tenham de recorrer a artifícios para explicitar que seu canal é um vídeo blog, no topo de cada vídeo aparece o nome do canal. Mesmo quando o usuário não acessa o canal, ele exerce sob o vídeo uma espécie de “entidade”, o significa, o emoldura (KILPP, 2005). Como acontece muito de um mesmo vídeo ser duplicado por outros usuários (o que acontece mais com digitalizações de programas da TV), funciona como uma espécie de assinatura do autor do vídeo, a garantia de que foi feito por ele.

Referências bibliográficas

KILPP, Suzana. Mundos televisivos. Porto Alegre: Armazém Digital, 2005.

SIBILIA, Paula. A vida como relato na era do fast-forward e do real time: algumas reflexões sobre o fenômeno dos blogs. Em Questão, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 35-51, jan./jun. 2005.

 

 

 

 

Seguimos a empreitada para compreender os canais do YouTube como redes sociais que colaboram nas estratégias dos músicos.

Acesse o canal do YouTube da banda Pomplamoose. Repare que ele, como todos os outros, é dividido em duas metades, que mostram as possibilidades de navegação como rede social/blog: na primeira, que mostra o topo do canal, como muitos blogs, possui um cabeçalho com logotipo, seguido do vídeo (post) mais recente, com links ao lado para posts anteriores.

Logo abaixo, vem o perfil do canal, num formato mais similar ao de uma rede social como o MySpace: à esquerda, foto do perfil e as possibilidades de adicionar como amigo, dados e estatísticas e outras informações. À direita, os canais pessoais dos músicos e outros trabalhos paralelos, seguido dos canais que a banda assina, os usuários que assinam o canal, e enfim uma lista de comentários do canal.

Esse misto de blog e rede social começa a gerar perguntas: afinal é um ou outro? Essas definições que tentamos dar acabam diluídas nas práticas. No MySpace, por exemplo, há a opção de inserir um blog em seu perfil, com espaço até para comentários. Em contrapartida, Playlists do MySpace podem ser incorporadas aos blogs, e assim por diante. As redes sociais vêm apresentando funções umas das outras para tentar manter o usuário o maior tempo possível logado nelas. E nessa “diluição das definições”, alguns espaços da web que não eram entendidos nem foram elaborados como redes sociais, acabam sendo

apropriados pelos atores com este fim. É o caso do Fotolog, dos weblogs, do Twitter, etc. São sistemas onde não há espaços específicos para perfil e para a publicização das conexões. Esses perfis são construídos através de espaços pessoais ou perfis pela apropriação dos atores. [...] weblogs não são sites de redes sociais, mas podem ser apropriados como espaços de construção e exposição dessas redes. (RECUERO, 2009, p. 103)

No YouTube aconteceu o contrário. Ele possui todos os elementos que uma rede social necessita, mas o uso predominante é como repositório. Se resta alguma dúvida de que o YouTube é uma rede social, basta lembrar a definição de Boyd & Ellison para redes sociais. São “aqueles sistemas que permitem i) a construção de uma persona através de comentários; ii) a interação através de comentários; e iii) a exposição pública da rede social de cada ator” (apud RECUERO, 2009, p. 102). O YouTube permite as três.

Pois bem, se tanto os blogs quanto o YouTube são redes sociais, se cada vídeo recebe registro de data e hora quando é postado, e se há espaço para comentários em cada “post” (URL individual do vídeo), deve haver menos distinção entre um canal do YouTube e um blog específico do que imaginamos. Nos parece que fazer essa comparação, encontrando semelhanças e diferenças entre um e outro, seja um atalho para compreender os canais, dado a raridade de pesquisas científicas tanto sobre estes como qualquer tipo de vídeo blog.

Está bem claro que um canal do YouTube pode ser considerado um vídeo blog, desde que tenha algumas características específicas, que vão variar de acordo com o uso que o músico vai fazer do canal. Nos faz lembrar do texto de Boyd, quando ela mostra que se olharmos para as práticas, os blogs não são somente um gênero, mas uma mídia através da qual a comunicação acontece (2006, p. 19). Então, as práticas e a expressão dos usuários interferem e constituem o que entendemos por blogs (idem, p. 11).

Referências Bibliográficas

BOYD, Danah. A blogger’s blog: exploring the definition of a medium. IN: Reconstruction: studies in contemporary culture, v. 6, n. 4, pp. 1-19, 2006. Disponível em: <http://reconstruction.eserver.org/064/boyd.shtml>. Acesso em 11 abr. 2011.

RECUERO, Raquel. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.


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